Eternamente Menina

Junho 18 2016

Impensadamente retirei um livro da prateleira da estante do quarto/escritório que é o meu poiso, há anos, herdado da filhota, quando se mudou de malas e mobília para a casa dela, quase paredes-meias com a minha.
Gosto de ler antes de adormecer, para que as notícias e afazeres do dia sejam substituídas pelas "imagens" que o poema me transmite e, assim, o meu sono ser mais leve.

Acordei com a imagem do lago no meu olhar…

 

Andres Castellanos.

 Pintura de Andres Castellanos 

 

Efémero

«Os teus olhos, outrora nunca cansados dos meus,
Ocultam-se tristes sob pálpebras cerradas
Porque o nosso amor declina.»

E ela disse:
«Embora o nosso amor esteja em declínio, fiquemos
Mais uma vez junto à solitária margem do lago
Unidos nessa hora de tranquilidade
Quando a cansada e infeliz criança, a Paixão, adormece.
Como parecem distantes as estrelas, e distante
O nosso primeiro beijo e tão velho o meu coração!»
Pensativos caminharam por entre as folhas murchas
Enquanto ele, tomando-lhe a mão, lentamente respondeu:
«A paixão muitas vezes cansou os nossos corações inconstantes.»

Os bosques cercavam-nos e as folhas amarelas
Caíam como débeis meteoros na escuridão e um coelho
Velho e aleijado passou de repente a coxear pela vereda;
O Outono tombava sobre ele. E agora eles ali estavam
Uma vez mais na solitária margem do lago:
Voltando-se, viu que ela lançara folhas mortas,
Colhidas em silêncio e orvalhadas como os seus olhos,
Sobre o seio e os cabelos.

«Oh, não lamentes», disse ele,
«O nosso cansaço; outros amores nos aguardam;
Odeia e ama ao longo das serenas horas.
Aguarda-nos a eternidade; as nossas almas
São amor e um contínuo adeus.»


W. B. Yeats, in “Os Pássaros Brancos e outros Poemas”
Pág. 20/21
(Tradução de Maria de Lourdes Guimarães e Laureano Silveira)
(Relógio d’Água)

 

 

 

publicado por Menina Marota às 23:31

Maio 25 2016

Será um prazer contar com a vossa companhia. Desde já agradeço.

Obrigada.

Convite OM.jpg

 

PALAVRAS PARTILHADAS

 

É na palavra partilhada

alegre, sol no coração

que o poeta sente a brisa

correndo lés a lés,

movendo-se

em ditongos de oração.

 

Entre palavras voa uma gaivota

seduzida pela aragem

nascida das ondas

(brisa marinha com aroma a jasmim)


face a face com a lua

que envergonhada

se esconde numa nuvem

e a deixa passar.

 

É na palavra partilhada

ousada

inebriante de anseios

que os enamorados

lado a lado

caminham entre sulcos de desejos

na demora de um tempo audacioso,

que transmita o tumulto dos seus corações

bravios, sedentos,

ardentes de mil afectos

e se unam

no desejo incontido

corpo, pele, suor,

e mitiguem a sede abrasadora

dos seus lábios.

 

É a palavra

partilha de sentimentos

que se cruzam na vida

e no coração.

 

publicado por Menina Marota às 17:41

Abril 05 2016

 

 

 

Deixa ficar a flor,
A morte na gaveta,
O tempo no degrau.

Conheces o degrau:
O sétimo degrau
Depois do patamar;
O que range ao passares;
O que foi esconderijo
Do maço de cigarros
Fumado às escondidas...

Deixa ficar a flor.

E nem murmures. Deixa
O tempo no degrau,
A morte na gaveta.

Conheces a gaveta:
A primeira da esquerda,
Que se mantém fechada.
Quem atirou a chave
Pela janela fora?
Na batalha do ódio,
Destruam-se, fechados,
Sem tréguas, os retratos!

Deixa ficar a flor.

A flor? Não a conheces.
Bem sei. Nem eu. Ninguém.

Deixa ficar a flor.

Não digas nada. Ouve.
Não ouves o degrau?

Quem sobe agora a escada?
Como vem devagar!
Tão devagar que sobe...

Não digas nada. Ouve:
É com certeza alguém,
Alguém que traz a chave.

David Mourão Ferreira

"AS ÚLTIMAS VONTADES" in, Obra Poética

a págs. 126/127

publicado por Menina Marota às 21:33

Março 31 2016

Amanda Cass

 

O beijo da quilha
na boca da água
me vai trocando entre o céu e mar,
o azul de outro azul,
enquanto
na funda transparência
sinto a vertigem
de minha própria origem
e nem sequer já sei
que olhos são os meus
e em que água
se naufraga minha alma


Se chorasse, agora,
o mar inteiro
me entraria pelos olhos


Poema de Mia Couto,

in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

a págs. 70

publicado por Menina Marota às 09:35

Fevereiro 11 2016

Caso tenhas saudades de mim, olha as estrelas.

Lembra-te do meu sorriso. Olha o sol, vê nele o brilho do meu olhar, quando te via.

Por fim, quando vires o pôr-do-sol, lembra-te da despedida que não tivemos.

Se este pôr-do-sol vier acompanhado de uma chuva leve lembra-te então das minhas lágrimas num dia de chuva que lavaram a minha alma e levaram um amor sincero e puro.

Quando vires nascer este mesmo sol e um novo dia começar, lembra-te também, que tudo que renasce, vem com mais força.

Se algum dia tiveres vontade de chorar, lembra-te das minhas lágrimas, da minha mágoa e do meu imenso amor.

Pensamentos confusos sim, vão surgir.

Saudades, também.

Porque elas não são presente; mas são a prova que fomos felizes e que foi realmente lindo tudo o que vivemos e tivemos.

Então sorri e lembra-te que a nossa história ficou escrita nos nossos corações.

E, quando as lembranças resistirem e se recusarem em ir, vê nascer o pôr-do-sol. Imagina a beleza que foi o nosso amor.

Lembra-te da nossa história.

E sorri.

in, "menina marota um desnudar de alma" 
Otília Martel

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publicado por Menina Marota às 23:58
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