Eternamente Menina

Janeiro 25 2018

Janet A. CookPintura de Janet A. Cook

 

a hora floresce
rosa
vermelha
rubra e escarlate
—eu sei da moça que se deleita
e da hora que passa
dança que dança—
o meu relógio tem um arquejo
de uma vez só seta de ouro e chumbo

a hora floresce
e é o meu coração como a esponja espremida
—agora uma esponja que esguicha o excesso—
alguém embaraça
em oculto
os ponteiros

cada minuto cai como a água da neve
lá onde está a amiga
—e junto a mim cai qual espuma
ferida.

 

Poema de Joan Salvat-Papasseit

Tradução de Adriano do Carmo Lima

(Adrian'dos Delima)

publicado por Menina Marota às 15:05

Outubro 20 2017

Tanto se perdeu nestes dias.
E a tristeza faz emudecer. A dor da perda de seres humanos; da natureza vegetal e animal.
A dor que derrama lágrimas silenciosas cujo olhar se perde para além do cinzento e das cinzas.

A dor da solidão e do sofrimento. Quanto sofrimento...

 

Autor Desconhecido.jpg

 

Poema da árvore

 

As árvores crescem sós. E a sós florescem.

Começam por ser nada. Pouco a pouco
se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.

Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,
e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.

Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,
e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,
e os frutos dão sementes,
e as sementes preparam novas árvores.

E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.
Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.
Sós.
De dia e de noite.
Sempre sós.

Os animais são outra coisa.
Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,
fazem amor e ódio, e vão à vida
como se nada fosse.

As árvores não.
Solitárias, as árvores,
exauram terra e sol silenciosamente.
Não pensam, não suspiram, não se queixam.

Estendem os braços como se implorassem;
com o vento soltam ais como se suspirassem;
e gemem, mas a queixa não é sua.

Sós, sempre sós.
Nas planícies, nos montes, nas florestas,
a crescer e a florir sem consciência.

Virtude vegetal viver a sós
e entretanto dar flores.

 

António Gedeão, in "Obra Poética", (2001)

 

publicado por Menina Marota às 15:49

Junho 18 2016

Impensadamente retirei um livro da prateleira da estante do quarto/escritório que é o meu poiso, há anos, herdado da filhota, quando se mudou de malas e mobília para a casa dela, quase paredes-meias com a minha.
Gosto de ler antes de adormecer, para que as notícias e afazeres do dia sejam substituídas pelas "imagens" que o poema me transmite e, assim, o meu sono ser mais leve.

Acordei com a imagem do lago no meu olhar…

 

Andres Castellanos.

 Pintura de Andres Castellanos 

 

Efémero

«Os teus olhos, outrora nunca cansados dos meus,
Ocultam-se tristes sob pálpebras cerradas
Porque o nosso amor declina.»

E ela disse:
«Embora o nosso amor esteja em declínio, fiquemos
Mais uma vez junto à solitária margem do lago
Unidos nessa hora de tranquilidade
Quando a cansada e infeliz criança, a Paixão, adormece.
Como parecem distantes as estrelas, e distante
O nosso primeiro beijo e tão velho o meu coração!»
Pensativos caminharam por entre as folhas murchas
Enquanto ele, tomando-lhe a mão, lentamente respondeu:
«A paixão muitas vezes cansou os nossos corações inconstantes.»

Os bosques cercavam-nos e as folhas amarelas
Caíam como débeis meteoros na escuridão e um coelho
Velho e aleijado passou de repente a coxear pela vereda;
O Outono tombava sobre ele. E agora eles ali estavam
Uma vez mais na solitária margem do lago:
Voltando-se, viu que ela lançara folhas mortas,
Colhidas em silêncio e orvalhadas como os seus olhos,
Sobre o seio e os cabelos.

«Oh, não lamentes», disse ele,
«O nosso cansaço; outros amores nos aguardam;
Odeia e ama ao longo das serenas horas.
Aguarda-nos a eternidade; as nossas almas
São amor e um contínuo adeus.»


W. B. Yeats, in “Os Pássaros Brancos e outros Poemas”
Pág. 20/21
(Tradução de Maria de Lourdes Guimarães e Laureano Silveira)
(Relógio d’Água)

 

 

 

publicado por Menina Marota às 23:31

Maio 25 2016

Será um prazer contar com a vossa companhia. Desde já agradeço.

Obrigada.

Convite OM.jpg

 

PALAVRAS PARTILHADAS

 

É na palavra partilhada

alegre, sol no coração

que o poeta sente a brisa

correndo lés a lés,

movendo-se

em ditongos de oração.

 

Entre palavras voa uma gaivota

seduzida pela aragem

nascida das ondas

(brisa marinha com aroma a jasmim)


face a face com a lua

que envergonhada

se esconde numa nuvem

e a deixa passar.

 

É na palavra partilhada

ousada

inebriante de anseios

que os enamorados

lado a lado

caminham entre sulcos de desejos

na demora de um tempo audacioso,

que transmita o tumulto dos seus corações

bravios, sedentos,

ardentes de mil afectos

e se unam

no desejo incontido

corpo, pele, suor,

e mitiguem a sede abrasadora

dos seus lábios.

 

É a palavra

partilha de sentimentos

que se cruzam na vida

e no coração.

 

publicado por Menina Marota às 17:41

Abril 05 2016

 

 

 

Deixa ficar a flor,
A morte na gaveta,
O tempo no degrau.

Conheces o degrau:
O sétimo degrau
Depois do patamar;
O que range ao passares;
O que foi esconderijo
Do maço de cigarros
Fumado às escondidas...

Deixa ficar a flor.

E nem murmures. Deixa
O tempo no degrau,
A morte na gaveta.

Conheces a gaveta:
A primeira da esquerda,
Que se mantém fechada.
Quem atirou a chave
Pela janela fora?
Na batalha do ódio,
Destruam-se, fechados,
Sem tréguas, os retratos!

Deixa ficar a flor.

A flor? Não a conheces.
Bem sei. Nem eu. Ninguém.

Deixa ficar a flor.

Não digas nada. Ouve.
Não ouves o degrau?

Quem sobe agora a escada?
Como vem devagar!
Tão devagar que sobe...

Não digas nada. Ouve:
É com certeza alguém,
Alguém que traz a chave.

David Mourão Ferreira

"AS ÚLTIMAS VONTADES" in, Obra Poética

a págs. 126/127

publicado por Menina Marota às 21:33

Sobre Mim...
Outras Eternidades