Perdida no meio dos muros, que eu própria ergui, vivo a fantasia de ser aquilo que não sou capaz de ser. Pelo sonho e ilusão, encontro um equilíbrio pardo, amarelado, que me suaviza a dor da minha própria ausência.
Na fantasia, sinto as tuas mãos, tão diferentes das que conhecem a geografia do meu corpo.
No sonho, uns lábios de sabor a mel, tão diferentes do sabor da rotina dos que conheço.
Na ilusão, o cheiro do teu corpo a maresia, tão diferente do que já se confunde com o meu.
Pouco interessa quem és, se me permites a ilusão de me sentir renascer.
Mas, quando os meus olhos se abrem, apenas sinto a tua ausência em mim, a dor do desejo, a permanente insatisfação que me tolda a mente, que me acentua a dor, quase física, de te não ter.

-Que fazes tu com a tua vida? Acolho-a - Óleo de Margarida Cepêda -
Amor? Romance? Liberdade? Auto estima? Sei lá o quê...
À mercê de todos os outros, sempre os outros, no meu pensamento, ergo bem alta a herança do preconceito de ser leal a mim própria, aos meus desejos e sentimentos.
Pelo bem dos outros, não hesito em actos de autofagia do que quero, do que me faria sentir mais mulher, mais pessoa, mais eu.
Tenho, em agonia, uma máscara de sorrisos pregada no rosto que, em oferenda, fazem os outros um pouco mais felizes.
Ainda pelos outros, pela lealdade aos outros, pela regra do estipulado como virtude, sou a tecedeira parcimoniosa do mais ignóbil crime: deixar que a Vida, apenas desenhe rugas no meu corpo e amargue o meu olhar!
Poderão os outros ser bafejados com momentos de maior felicidade, originados pela insatisfação a que me voto? Ou será ilusão? Valerá a pena?
Olho-me ao espelho: é difícil ver-me por detrás da máscara.
Receio perder-me de vez!
(07-07-2003)

Dorme meu menino a estrela d'alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber será para ti.Outra que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvirás cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar.Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu cantor
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela d'alva o seu fulgor.Perde a estrela d'alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme quinda a noite é muito menina
Deixa-a vir também adormecer.(José Afonso)

"Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar"
Sophia de Mello Breyner Andresen
...sinto-me uma criança, que descobriu pela primeira vez algo de novo, tão belo, tão poderoso, que está tão contente, tão feliz, que é toda sorrisos e vontade de partilhar a sua descoberta.
Não se riam de mim mas, problemas familiares, que não interessa referir, para não estragar a minha alegria, fizeram com que, até ontem, não tivesse visitado, uma das coisas mais bonitas que vi nos últimos anos (à excepção dos meus filhos, claro(eh eh).

Uma súbita ida de férias, do meu filho para o Algarve, de comboio, foi mais que pretexto, para o acompanhar a Lisboa, no conforto do menino que viaja, pela primeira vez, sozinho e, ao mesmo tempo, um controle pela mudança de comboio.
Sozinha, com horas livres até ao próximo comboio, decidi visitar aquilo que há muito, queria conhecer: o Oceanário de Lisboa. Dizer isto, talvez seja banal, para quem me lê. Parece-me que toda a gente visitou a Expo 98, menos eu!
Os meus filhos fizeram-me relatos minuciosos. Realçaram a beleza, a força, a cor, os ruídos. Mas não é a mesma coisa!

Mas, o momento mais emocionante, foi realmente, quando vislumbrei o habitat das lontras, um sentimento de ternura, ver a pequenina lontra, em cima da barriga da mãe, (a Amália) mamando, enquanto ela lhe dava pequenas palmadinhas, talvez para a acalmar.

Voltei tão feliz, que quis partilhar convosco a minha primeira incursão naquele mundo fabuloso.
As fotografias não terão muita qualidade, mas foram tiradas cheia de entusiasmo.
Ao Eusébio e Amália, bem como o seu pequenino bebé, não me foi possível tirar imagens, a bem da sua privacidade familiar mas, será um momento digno de ficar na memória, de todos aqueles que tenham oportunidade para visitá-los nesta Páscoa...
Feliz Páscoa
**Em tempo: Uma vez que as minhas fotos não conseguem ser visualizadas, como já foi dito, optei por as substituir por outras, retiradas da Internet. Logo que possível, recolocarei as minhas originais. Obrigada pela compreensão.**
O pai (o Eusébio), como todo o macho que se preza, deitado de barriga para cima, ressonava a bom ressonar, alheio ao que se passava em redor.
Foi um momento único, aquele. Observando a pequenina lontra, de duas ou três semanas apenas, dormindo serenamente em cima da barriga da mãe.
Le Printemps

Claude Monet
Vem Primavera.
O jogo dos sexos renova-se
Os amantes encontram seus pares.
Já a mão subtil e conquistadora do amado
Faz arrepiar o peito da rapariga.
Ela tenta-o com o olhar furtivo.
A uma nova luz
A paisagem revela-se aos amantes na Primavera.
A grande altura avistam-se os primeiros
Bandos de pássaros.
O ar já aqueceu.
Os dias são mais longos e os
Prados iluminam-se até tarde.
Desmedida é a exuberância de árvores e ervas
Na Primavera.
Perpetuamente fecundo
É o bosque, são os prados, os campos.
E a terra dá à luz o novo
Sem cuidado.
(Bertolt Brecht)

[Imagem de Galeria 1000imagens]
Em tempo: Hoje (dia 21 de Março) para além de ser o início da Primavera, é também o dia Internacional da Poesia.
Porém, Poesia existe todos os dias...mas, não quero deixar de assinalar o dia
Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
(Alberto Caeiro)
...que da necessidade de exprimir sentimentos, que habitam paredes meias, com a solidão, a alegria, a tristeza, o amor, o encanto e desencanto, nasceu este Blog.
Aqui, consegui encontrar-me, sendo uma dádiva para mim, a presença de todos vós, na magia da palavra oferecida. Sem elas, a existência deste Blog, não faria sentido.
Obrigada pela vossa presença.
No silêncio da tarde alguém cantou,
um início de balada,
uma canção de amor.
Ao longe o sol dentro do mar tombou
e a tarde avermelhada
era um jardim em flor.
Voz clara a cantar eterno canto
era tão triste e doce
que eu a escutar parei.
Caía do luar um claro encanto
enquanto aquela voz distante
cantava o seu amor sentido.
E eu parti a chorar, caminho adiante,
por ter compreendido,
que esse canto, afinal, o tinha ouvido
de um coração que amava ternamente.
As cores do amor, podem ser tão suaves...

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Vassily Kandinsky

Um dos sentimentos que mais sinto no mundo cibernáutico, é o da partilha. Aquela partilha, que está na dádiva de transmitir aos outros, o nosso pensamento, a nossa arte com as palavras, e também, um pouco daquilo, que nós temos de bom, e que, possivelmente, atrairá o bom que os outros têm para nos dar.
Mas, quando recebemos mais do que aquilo que esperamos, esse sentimento, passa a ter um valor, muito mais profundo.
Nestas singelas palavras, quero agradecer a disponibilidade total, que o Andy, do Nietzsche.blogs me dedicou na transformação deste Blog.
Demorei tempo, na escolha daquilo que lhe queria oferecer mas, decidi-me por este Kandinsky, (lamento não ser real...) que lhe deixo com um enorme abraço de ternura.

Um poema inacabado
É como um filho por fazer
É como um beijo com sabor a sal
Um poema inacabado
É o caminho por onde vou
É o trilho que eu quero seguir
Um poema inacabado
É aquilo que eu não sou
É o amor que não amei
Um poema inacabado
É o grito que eu calei
As palavras que não falei
Os amores que eu amei
Um poema inacabado
É a diferença inaceitável
É a confusão descontrolada
Um poema inacabado
É a vida que não vivi
Aquilo que não fui
Aquilo no que me transformei
Um poema inacabado
É o meu nome talvez...
(Ângela Monforte in Palavras à Solta )
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