Eternamente Menina

Novembro 23 2012

Há paixões que cresceram comigo e que o tempo não diminui: mar, animais, música, flores, livros (não necessariamente por esta ordem) são algo que sempre fizeram parte da minha vida e que, de uma forma ou outra, me marcaram.
Já hoje falei, num outro local, de Fernando Pessoa e da importância que dou à sua poesia no decorrer dos tempos.
Descobri Ruy Belo mais tarde. Confesso que não foi amor à primeira vista mas não renunciei a ele. E li-o. E reli-o. Mastiguei cada estrofe do seu versilibrismo. E, no fim, sucumbi ao poder argumentista de uma poesia cheia de significados.

Pintura de Vladimir Kush
Pintura de Vladimir Kush


"Morte ao meio-dia"

No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopre e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente tem saúde e assistência cala-se e mais nada
A boca é pra comer ou pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

O português paga calado cada prestação
Para banhos de sol nem casa se precisa
E cai-nos sobre os ombros quer a arma quer a sisa
e o colégio do ódio é a patriótica organização

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido a praia à luz do dia
pois a areia cresceu e o povo em vão requer
curvado o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer

de, Ruy Belo in Todos os Poemas, Vol.I, págs 203/204
publicado por Menina Marota às 11:07

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