Eternamente Menina

Junho 17 2013
Frederick Leighton

 Pintura de Frederick Leighton 

 

Uma das mais fiéis leitoras deste blogue, desde o seu início, desafiou-me para uma das tarefas mais difíceis mas de que mais gosto: recordar  os autores que li na minha juventude.


Fui sempre uma leitora (e compradora) compulsiva de livros. Quer seja poesia ou ficção. Falar de livros, não será para mim, um tema de circunstância, porque afinal, muita da literatura que li, marcou a minha personalidade e a minha escolha de filosofia de vida… 


Nos meus tempos de menina, na minha fase romântica, (confesso que ainda sou) chorei quando li “Jane Eyre”, de Charlotte Bronte, ou mesmo “O Monte dos Vendavais", de sua irmã Emily Bronte, ou quando passava noites inteiras acordada lendo obras de (retiradas às escondidas, da biblioteca do meu Pai)
Sophia de Mello Breyner, Oscar Wilde, Júlio Verne, Camões, Florbela Espanca, Afonso Lopes Vieira, Cecília Meireles, Fernando Pessoa, Vitorino Nemésio, Sebastião da Gama, Miguel Torga, João de Deus, Antero de Quental, Natália Correia, Eríco Veríssimo, Marguerite Duras, António Botto, Teixeira de Pascoaes, Aquilino Ribeiro, Júlio Dinis, Alexandre Herculano, Herberto Hélder, Charles Dickens, Graham Greene, John Steinbeck, Walter Scott, Virginia Woolf, John Donne, Ernest Hemingway, Hermann Hesse, Dylan Thomas, Boris Vian, Lord Byron, Thomas Moore, Aldous Huxley, Honoré de Balzac, Jorge Amado, Camilo Pessanha ou um Eça de Queirós, entre muitos outros...


Houve uma altura que "estudei" Homero, Ovídio, Virgílio, mas depressa passei para Cervantes e ler o seu “D. Quixote de La Mancha" foi qualquer coisa que me marcou até hoje. Depois vieram leituras empolgantes, como "Anna Karenina" ou "Guerra e Paz" de Leon Tolstói, ou “As Vinhas da Ira”, de John Steinbeck, que me levou a desejar ler ainda mais e aí apareceram autores, como Dostoiévski, Gorki, Gogol, Tolstoi, Tchekhov.

"O Primeiro Amor" de Isaak Babel, deixou-me com dúvidas terríveis, mas depressa as esqueci a ler a fantástica obra de Anatoly Kuznetsov "Babi Yar" que me levou aos horrores do holocausto…

Já numa outra fase, apaixonei-me por Friedrich Nietzsche e dele retirei um pouco da sua "loucura".

Numa viagem de vinte e dois dias por mar, li os quatro volumes de "O Don Tranquilo", de Mikahail Chólokhov e depois interessei-me pela obra poética de Mikhail Lermontov de que aqui deixo um excerto:

 

"Ó nuvens pelos céus que eternamente andais!
Longo colar de pérolas na estepe azul,
exiladas como eu, correndo rumo ao sul,
longe do caro norte que, como eu, deixais!

Que vos impele assim? Uma ordem do Destino?
Oculto mal secreto? Ou mal que se conhece?
Acaso carregais o crime que envilece?
Ou só de amigos vis o torpe desatino?

Ali não: fugis cansadas da maninha terra,
e estranhas a paixões e ao sofrimento estranhas
eternas pervagais as frígidas entranhas.
E não sabeis, sem pátria, a dor que o exílio encerra”"

(“Nuvens”, de Mikhail Iurievitch Lermontov, in Poesia de 26 Séculos, Ed.Asa
(pág.246)


Ler é uma paixão. De vez em quando pego ao acaso em livros já lidos e relidos e volto a recordar certas passagens que mais gostei. Como estas...

 

"Vimos de nada e vamos para onde. 

Perguntamos, e nada nos responde,
A verdade e a mentira são irmãs:
O que é que o evidente nos esconde?"
(…)
(excerto)

in "Canções de Beber" de Fernando Pessoa), Assírio&Alvim
(pág.84)



Capa do livro

 

"…Quem observasse o viver de Camilo assim parco na mesa só ampliada quando a ela se assentavam estranhos, como singelo no adorno da casa, rejeitava a suspeita de ostentação naquele grande espírito."

in Camilo "visto por Freitas Fortuna, Edição da "Casa de Camilo" 


"Digo que não
Ao medo
Que me apavora;
E juro ao coração
Que virá cedo
A calma que demora."
(…)

(excerto)

in "Orfeu Rebelde" de Miguel Torga Edição Particular, Coimbra
(pág. 44)

 

"…Quanto maior é a cidade mais anonimamente se vive nela. Parecendo que não, isso repousa os nervos. É evidente que há parecenças em todas as partes do mundo, mas é diferente constatar parecenças do que viver a permanência…."
In Banana SPLIT” de Rui de Brito, Pub. Europa-América 
(pág.88)

"...Ver-se-ia então a noite instalar-se no mundo, as montanhas cobrirem-se de florestas e as florestas povoarem-se de feras.
Quanto aos costumes e maneiras dos povos, uma carapaça de gelo os cobriria…"
in "Salvo-conduto" de Boris Pasternak, Bibliotex Editor 
(pág. 45)


Retrato de Eugénio de Andrade por Dórdio Gomes


“Acorda-me
um rumor de ave.
Talvez seja a tarde
a querer voar.

A levantar do chão
qualquer coisa que vive,
e é como um perdão
que não tive

Talvez nada.
Ou só um olhar
que na tarde fechada
é ave.

Mas não pode voar.

in "30 Poemas", de Eugénio de Andrade,

Fundação Eugénio de Andrade
(pág.15)  


E termino com uma citação de um dos poemas que mais gosto de Dylan Thomas:


"... mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;"

publicado por Menina Marota às 23:57
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Fiquei deveras impressionado com esta bibliografia e está encontrada a justificação para com os blogs de grande qualidade que possui. É realmente um prazer infinito estar nas suas páginas.

Um beijo
Sergio Costa a 2 de Julho de 2013 às 16:25

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