Eternamente Menina

Agosto 07 2013

O texto que se segue foi deixado, num dos meus blogues, como comentário a um poema que partilhei.

Pela sua qualidade e sensibilidade resolvi partilhá-lo.

 

Vladimir Kush
Vladimir Kush

 

O Poema (enquanto espero por ti)

I

 

Todos os dias ela traz as manhãs no seu regaço e dá-mas, como maçãs verdes por trincar, vestidas de orvalho. Toca-me com as pontas de pluma dos dedos dela – em prelúdio de mãos entrelaçadas – e, à distância, pede-me silêncio até que eu consiga ouvir apenas o meu coração e o dela a bater sincopadamente. Esse é o sinal de partida para o dia – sem ela mas apenas com e por ela.

(Depois, e apesar de ser um presente dela, desperdiço mais um dia, enclausurado na prisão do meu escritório, alegrando-me apenas e absurdamente quando, por momentos, lembro o seu límpido olhar de menina, puro de água nunca tocada - muito menos bebida. Depois – e antes de nova recaída nela - volto à luta, já que o trabalho não se faz sozinho, as batatas não se pagam sozinhas – de facto, a solidão é mesmo um privilégio humano… E o pior é que nem tenho um pássaro de olhar lírico – eventualmente poisado nos ramos de uma árvore que apenas sonha ser uma rosa -, nem sequer tenho uma porcaria de um quintal em frente, e a única gaiola que conheço é este escritório que, dia a dia, palavra a palavra, número a número, me asfixia a alma a cada expirar. Mas às rigorosas e implacáveis 18:00,00 TMG saio em liberdade condicional, apenas para ficar à espera do sinal dela, na estranha e secreta esperança de renascermos juntos.)

Ao entardecer ela embala o Sol, deitando-o depois nas correntes que empurram o Douro para o abraço do Atlântico onde, lenta e pacificamente, adormece, desaparecendo como um beijo de fogo que se extingue no horizonte. E esse é o sinal de partida para a noite – sem ela mas apenas com e por ela –, para mais uma noite em que eu acredito que ela virá libertar-me, resgatar-me deste estranho torpor de dias moribundos. E, enquanto espero, saboreio a imagem que dela construí, seu beijo, seu abraço, como se ela fora feita de todas as maçãs verdes nascidas do orvalho de todas as manhãs. E que eu quero desesperadamente trincar.


II


Graças a ela, todos os dias eu, qual Mouro distante, redescubro o Poema Essencial, aquele que não precisa de palavras – porque as transcende.

E quando hoje eu a vi, surgindo por de dentro de uma lágrima de espera que se quebrou no chão frio de minha casa, aí sim, eu soube, tive a certeza, que o Poema tinha nascido para ela, nela, sob a forma dela.

 

III

 

Hoje eu soube, aprendi, que ela é – apenas e só – ela. Despida de frase, palavra ou fonema. Ela é a Vida, ela é

O Poema. 

de, Cuotidiano

publicado por Menina Marota às 12:56

Pegando uma ronda na web vim tendo aqui e me deliciei com este blog e seu conteúdo. Muito bom texto. Parabelizo o autor.
Passeando no Parque a 11 de Agosto de 2013 às 09:50

SOBERBO!!
Marius Salgado a 28 de Agosto de 2013 às 22:23

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