Eternamente Menina

Agosto 11 2014

Gosto de escrever sobre tudo e sobre nada. E este nada é tudo para mim.

 

Gosto de escrever sobre o amanhecer, de ouvir os pássaros no arvoredo por debaixo da janela da minha cozinha. Do entoar da resposta que os meus agapornes através da janela aberta lhes dão enquanto bebo o café acabado de fazer.

 

Gosto de escrever o que me vai na alma neste dia a dia com e sem sol. Do florir das pétalas nos vasos da minha janela. Do som no silêncio do dia. Da música que toca, permanentemente, no canal Smooth da Tv. Do amor que paira em todos os objectos e fotografias dispersas nos aposentos por onde passo.  

 

Gosto da simplicidade das palavras (sem acordo ortográfico), que bailam à minha volta.

 

Escrever é a sinfonia que a minha alma compõe, mesmo sem saber música dos mestres.

 

Gosto de escrever sobre os pequenos grandes pensamentos que me invadem, na memória do passado e do presente. Ler a minha alma longe da supérflua vivência que emana das abstractas ocorrências sociais.

 

Gosto de escrever (partilhar) sobre quem leio e o que escrevem.

 

Ler é a paixão que aliada a outras paixões me faz permanecer viva e viva querer continuar a viver.  

 

Da minha janela


Foi para ti 

que desfolhei a chuva 
para ti soltei o perfume da terra 
toquei no nada 
e para ti foi tudo 

Para ti criei todas as palavras 
e todas me faltaram 
no minuto em que talhei 
o sabor do sempre 

Para ti dei voz 
às minhas mãos 
abri os gomos do tempo 
assaltei o mundo 
e pensei que tudo estava em nós 
nesse doce engano 
de tudo sermos donos 
sem nada termos 
simplesmente porque era de noite 
e não dormíamos 
eu descia em teu peito 
para me procurar 
e antes que a escuridão 
nos cingisse a cintura 
ficávamos nos olhos 
vivendo de um só 
amando de uma só vida

Mia Couto, in Raiz de Orvalho e Outros Poemas.


Imagem
: o verde da janela da minha cozinha onde os pássaros pernoitam e fazem ninhos...
publicado por Menina Marota às 21:45

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