Eternamente Menina

Junho 17 2019

Peggi Wolfe (Wolfepaw)

O dia amanheceu cinzento.
Não gosto de dias assim. Fico com pensamentos sombrios e torno-me sombria como o dia.
E penso que a vida, inúmeras vezes, é como um dia sem sol.
E lembranças voam no meu espirito.
Não é só o sol que a vida, tantas vezes, nos tira.
Vamos perdendo, fisicamente, familiares e amigos.
Vamos perdendo referências que nos inundavam a alma; alegravam a vida tornando-a melhor.
Escuto a música que toca numa dependência da casa. Ouvindo-a, sentimentos controversos inundam-me.
Há quem diga que viver no passado não é viver. Sorrio, interiormente.
As memórias do meu coração estão tão vivas que não as considero passado.
Fazem-me querer viver. São o meu refúgio. A forma discreta de despertar meus sentidos. São o meu alimento.
A vida, na actualidade, corre tão depressa que as minhas energias seriam gastas se não tivesse uma fonte de alimentação que me mantém de pé.
Passa a correr, num piscar de olhos.
Os filhos crescem; seguem o seu caminho.
Ficam as memórias que me abraçam tantas vezes.
O passado é presente. E tão presente!
Sinto que cresci num casulo mágico.
Amadureci.
Construí a minha felicidade e partilhei-a com outros. Na alegria e na dor ganhei a força que transborda em todos os momentos.
Até num dia cinzento e sombrio como o de hoje.
Sorrio ao sol escondido dentro de mim.
Sou a força que renasce a cada dia como mulher, mãe e avó.
Amanhã será outro dia.

 

 


Imagem: Fractal de Wolfepaw (Peggi Wolfe)

 

 

publicado por Otília Martel às 22:19

Março 11 2019
Sting - dois meses

Cabias numa caixa de sapatos a primeira vez que te vi e te trouxe para casa.
Tão pequenino. Tão terno e ao mesmo tempo tão traquina.
Não foi fácil disfarçar pés de alguns móveis mordidos. De braços de cadeiras roídos. E tapetes fora do sítio.
Tudo servia para teu brinquedo. O velho e grande Farrusco acolheu-te tão bem! Tornaram-se grandes amigos e quando ele foi ao Veterinário e não conseguimos que voltasse tu correste a casa em sua busca. Dias e dias triste que mal comias.
Acabei por fazer entrar o Tareco na tua vida.
E que bem se deram.
Anos passaram e o Tareco resolveu seguir uma pomba e não voltou.
E tornaste a ficar triste até ao dia que a Ritinha uma Yorkshire mais pequenina que tu, apesar de ser já idosa, veio alegrar a tua vida. Quando ela foi operada e ficou dias deitadinha, com que delicadeza tu te aproximavas dela!
E voltaste a ter brincadeiras a dois.
Anos se passaram.
Pouco tempo depois de fazer quinze anos, a Ritinha deixou-nos.
Ficámos todos tão tristes.
E tu lambias-me o rosto enxugando as minhas lágrimas.
Tinhas dez anos na altura. Compreendias tudo.
E como me ajudaste a superar a partida do JP. A tua companhia foi preciosa. O teu amor um bálsamo.
Quase cinco anos depois, és tu que me deixas.
Tu. O meu amor canino.
O meu companheiro de tantos e tantos anos. De caminhadas. De correrias. De alegria.
Quem me vai secar as lágrimas quando choro?
Quem vai correr para mim quando chegar cansada das compras?
Quem vai esperar por mim no corredor da casa?
Com quem vou conversar nos dias da casa vazia?
Deixaste-me. Em pranto. Em pleno desespero.
Meu amor canino que me fizeste tão feliz e tantas alegrias me deste.
Partiste e levaste o meu coração. A minha alegria. O meu sorriso.

Adeus, Sring.

Meu fiel e amoroso  Amigo.

10.10.2002 - 09.03.2019

Até Sempre, Companheiro!

 

 

publicado por Otília Martel às 22:33

Fevereiro 15 2019

Muito do que me faz gostar do local onde vivo e a que chamo carinhosamente de “aldeia” (apesar de ser Vila desde 1987) são os sons da natureza que me despertam os sentidos e que, nas grandes e barulhentas cidades, não se ouvem.

Logo pela manhã ouço os galos vizinhos cantarem estridentemente.
Tal como a passarada em coro ao encetarem grandes e rasos voos que descortino da minha janela a saírem da vegetação onde fazem os ninhos.

Os gritos das gaivotas que, cada vez mais, se fazem ouvir por cima dos telhados, assustam os melros que gostam de debicar migalhas de bolacha que vou colocando no beiral do telhado para eles comerem.

Ultimamente até o mééé de uma cabrinha a comer vegetação no terreno vizinho me despertou a atenção.

Momentos que fazem a delícia dos meus dias.

O tempo e o sol, mais quente, trouxe as andorinhas.

E o céu fica de novo mais animado.

Boa noite!

Era uma andorinha branca
que me batia à janela
e contente anunciava
que chegara a primavera,
ou era eu que sonhava?

 

de, Eugénio de Andrade
in, Aquela nuvem e outras,
a págs 28.

 

swallow at sea by Karen Watson.jpg

Pintura: swallow at sea by Karen Watson

publicado por Otília Martel às 02:10

Fevereiro 14 2019

 

publicado por Otília Martel às 22:51

Dezembro 24 2018

O meu Menino JesusImagem pessoal

 

NATIVIDADE

 

Arde no coração da noite
A ritual fogueira que anuncia
O eterno milagre
Do nascimento.
Batida pelo vento,
Que da cinza das brasas faz semente,
É um sol sem firmamento,
Directamente
Aceso
E preso
À terra
Por mãos humanas.
De raízes profanas,
Lume de vida a bafejar a vida,
O seu calor aquece
A única certeza que merece
Ser aquecida...

(Vila Cova, 24 de Dezembro de 1958)

 

de, Miguel Torga in, Dário VIII, a págs 178

 

Feliz Natal

 

publicado por Otília Martel às 15:45

Sobre Mim...
Outras Eternidades