Eternamente Menina

Maio 26 2018

MB

Pois… a máquina diz “retire o seu dinheiro”. 

A esta ordem, espontaneamente, a nossa mão é atraída para esse movimento e, espanto dos espantos, vê saírem 3 notas de 10 €uros quando tinham sido pedidos 200 €uros.
A máquina, talvez porque se aproximava a hora do almoço, “comeu” 170 €uros.
Falta dizer que a máquina movimentava 200 €uros em notas de 10 €uros que não conseguiram passar pela respectiva ranhura!
Mas, da conta bancária, “desapareceram”, de imediato, os tais pedidos 200€.
E agora?

Parece brincadeira, mas não foi. Passo a explicar:

Na passada sexta feira, dia 18, após fazer compras no Modelo de Gulpilhares dirigi-me ao multibanco no interior do supermercado e pedi na caixa multibanco 200 €uros.
A máquina SÓ me deu 30 €uros em notas de 10 €uros e a conta foi debitada pela totalidade.
No mesmo dia apresentei reclamação na agencia de Arcozelo -Gaia do meu banco que a registou e deu seguimento para a SIBS.
Foi-me informado que na terça-feira seguinte o dinheiro seria restituído na minha conta.

Até hoje isso ainda não aconteceu.

Estão em falta 170 €uros que o MB do Modelo de Gulpilhares "comeu”.

A quem pedir responsabilidades? À Policia Judiciária?

Que confiança estas máquinas dão, afinal, aos clientes?

Entretanto em conversa com o próprio banco foi-me dito que era recorrente, daquela caixa MB e naquele sítio, o sucedido.

Contactada a SIBS empresa que gere as referidas caixas MB foi-me informado que era da responsabilidade do banco em causa a devolução da quantia em falta.

Em que ficamos?

Quanto tempo, numa época em que tudo é informatizado, em que despedem funcionários para serem substituídos por máquinas, vai demorar a restituição dos €uros que não me foram entregues?

Numa época em que se cobram juros por tudo e por nada, vão pagar-me juros do tempo que vão reter o dinheiro?

Na era da informática em que quase tudo é cobrado instantâneamente será possível haver tantas reclamações que impeçam as entidade competentes a resolverem casos destes?

Ou será que só pensam nos seus benefícios e os exijam?

É coincidência, erro da máquina, ou propositadamente, que acontecem estas situações?

E quem salvaguarda os nossos direitos?

 

publicado por Otília Martel às 16:02

Maio 15 2018

John Gannam

amo.te devagar
ao pequeno almoço
servido
com chá torradas

e uma colher de desejo

doce


Gabriela Rocha Martins
in .delete.me.
inverno 2008,
a págs. 20



Ilustração de John Gannam

publicado por Otília Martel às 09:55

Maio 07 2018

Martha Barros

 

 

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

 

Poema de Manoel de Barros

in, "Antologia comentada da poesia brasileira do século 21”,

a págs. 73/74

 

 

publicado por Otília Martel às 21:17

Abril 28 2018

Espelho de duas faces

 

Ajuda-me a esquecer as tuas faltas
e a ignorar os teus crimes
para melhor te amar.
Dá-me a febre em que te exaltas
e o que nos olhos exprimes
quando não sabes falar.

Espelho de duas faces, plana e curva:
és, e não és.
Imagem dupla, ora límpida, ora turva,
numa te afirmas, noutra te negas, em ambas te crês.

Queria sentir-te em outros sentidos.
Queria ver-te sem olhos e ouvir-te sem ouvidos.
E queria as tuas mãos numa aleluia fraterna.
Essas mãos que ainda ontem, de manhã, aturdidas,
com duas varas secas e folhas ressequidas
arrepiaram de luz as sombras da caverna.

 

António Gedeão in, Poesia Completas,

(1956-1967)
a págs. 11

publicado por Otília Martel às 12:22

Abril 11 2018

Lauri Blank

 

 

Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.


Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
— Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.


Miguel Torga, in 'Diário V'

 

 

Imagem: Lauri Blank 

publicado por Otília Martel às 19:11

Sobre Mim...
Outras Eternidades