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Eternamente Menina

Casulo mágico

Peggi Wolfe (Wolfepaw)

O dia amanheceu cinzento.
Não gosto de dias assim. Fico com pensamentos sombrios e torno-me sombria como o dia.
E penso que a vida, inúmeras vezes, é como um dia sem sol.
E lembranças voam no meu espirito.
Não é só o sol que a vida, tantas vezes, nos tira.
Vamos perdendo, fisicamente, familiares e amigos.
Vamos perdendo referências que nos inundavam a alma; alegravam a vida tornando-a melhor.
Escuto a música que toca numa dependência da casa. Ouvindo-a, sentimentos controversos inundam-me.
Há quem diga que viver no passado não é viver. Sorrio, interiormente.
As memórias do meu coração estão tão vivas que não as considero passado.
Fazem-me querer viver. São o meu refúgio. A forma discreta de despertar meus sentidos. São o meu alimento.
A vida, na actualidade, corre tão depressa que as minhas energias seriam gastas se não tivesse uma fonte de alimentação que me mantém de pé.
Passa a correr, num piscar de olhos.
Os filhos crescem; seguem o seu caminho.
Ficam as memórias que me abraçam tantas vezes.
O passado é presente. E tão presente!
Sinto que cresci num casulo mágico.
Amadureci.
Construí a minha felicidade e partilhei-a com outros. Na alegria e na dor ganhei a força que transborda em todos os momentos.
Até num dia cinzento e sombrio como o de hoje.
Sorrio ao sol escondido dentro de mim.
Sou a força que renasce a cada dia como mulher, mãe e avó.
Amanhã será outro dia.

 

 


Imagem: Fractal de Wolfepaw (Peggi Wolfe)

 

 

Amor Canino

Sting - dois meses

Cabias numa caixa de sapatos a primeira vez que te vi e te trouxe para casa.
Tão pequenino. Tão terno e ao mesmo tempo tão traquina.
Não foi fácil disfarçar pés de alguns móveis mordidos. De braços de cadeiras roídos. E tapetes fora do sítio.
Tudo servia para teu brinquedo. O velho e grande Farrusco acolheu-te tão bem! Tornaram-se grandes amigos e quando ele foi ao Veterinário e não conseguimos que voltasse tu correste a casa em sua busca. Dias e dias triste que mal comias.
Acabei por fazer entrar o Tareco na tua vida.
E que bem se deram.
Anos passaram e o Tareco resolveu seguir uma pomba e não voltou.
E tornaste a ficar triste até ao dia que a Ritinha uma Yorkshire mais pequenina que tu, apesar de ser já idosa, veio alegrar a tua vida. Quando ela foi operada e ficou dias deitadinha, com que delicadeza tu te aproximavas dela!
E voltaste a ter brincadeiras a dois.
Anos se passaram.
Pouco tempo depois de fazer quinze anos, a Ritinha deixou-nos.
Ficámos todos tão tristes.
E tu lambias-me o rosto enxugando as minhas lágrimas.
Tinhas dez anos na altura. Compreendias tudo.
E como me ajudaste a superar a partida do JP. A tua companhia foi preciosa. O teu amor um bálsamo.
Quase cinco anos depois, és tu que me deixas.
Tu. O meu amor canino.
O meu companheiro de tantos e tantos anos. De caminhadas. De correrias. De alegria.
Quem me vai secar as lágrimas quando choro?
Quem vai correr para mim quando chegar cansada das compras?
Quem vai esperar por mim no corredor da casa?
Com quem vou conversar nos dias da casa vazia?
Deixaste-me. Em pranto. Em pleno desespero.
Meu amor canino que me fizeste tão feliz e tantas alegrias me deste.
Partiste e levaste o meu coração. A minha alegria. O meu sorriso.

Adeus, Sring.

Meu fiel e amoroso  Amigo.

10.10.2002 - 09.03.2019

Até Sempre, Companheiro!

 

 

Da minha janela

Muito do que me faz gostar do local onde vivo e a que chamo carinhosamente de “aldeia” (apesar de ser Vila desde 1987) são os sons da natureza que me despertam os sentidos e que, nas grandes e barulhentas cidades, não se ouvem.

Logo pela manhã ouço os galos vizinhos cantarem estridentemente.
Tal como a passarada em coro ao encetarem grandes e rasos voos que descortino da minha janela a saírem da vegetação onde fazem os ninhos.

Os gritos das gaivotas que, cada vez mais, se fazem ouvir por cima dos telhados, assustam os melros que gostam de debicar migalhas de bolacha que vou colocando no beiral do telhado para eles comerem.

Ultimamente até o mééé de uma cabrinha a comer vegetação no terreno vizinho me despertou a atenção.

Momentos que fazem a delícia dos meus dias.

O tempo e o sol, mais quente, trouxe as andorinhas.

E o céu fica de novo mais animado.

Boa noite!

Era uma andorinha branca
que me batia à janela
e contente anunciava
que chegara a primavera,
ou era eu que sonhava?

 

de, Eugénio de Andrade
in, Aquela nuvem e outras,
a págs 28.

 

swallow at sea by Karen Watson.jpg

Pintura: swallow at sea by Karen Watson

Parabéns, Menino Jesus...

O meu Menino JesusImagem pessoal

 

NATIVIDADE

 

Arde no coração da noite
A ritual fogueira que anuncia
O eterno milagre
Do nascimento.
Batida pelo vento,
Que da cinza das brasas faz semente,
É um sol sem firmamento,
Directamente
Aceso
E preso
À terra
Por mãos humanas.
De raízes profanas,
Lume de vida a bafejar a vida,
O seu calor aquece
A única certeza que merece
Ser aquecida...

(Vila Cova, 24 de Dezembro de 1958)

 

de, Miguel Torga in, Dário VIII, a págs 178

 

Feliz Natal

 

ATM - Multibanco da SIBS - Dignos de confiança?

MB

Pois… a máquina diz “retire o seu dinheiro”. 

A esta ordem, espontaneamente, a nossa mão é atraída para esse movimento e, espanto dos espantos, vê saírem 3 notas de 10 €uros quando tinham sido pedidos 200 €uros.
A máquina, talvez porque se aproximava a hora do almoço, “comeu” 170 €uros.
Falta dizer que a máquina movimentava 200 €uros em notas de 10 €uros que não conseguiram passar pela respectiva ranhura!
Mas, da conta bancária, “desapareceram”, de imediato, os tais pedidos 200€.
E agora?

Parece brincadeira, mas não foi. Passo a explicar:

Na passada sexta feira, dia 18, após fazer compras no Modelo de Gulpilhares dirigi-me ao multibanco no interior do supermercado e pedi na caixa multibanco 200 €uros.
A máquina SÓ me deu 30 €uros em notas de 10 €uros e a conta foi debitada pela totalidade.
No mesmo dia apresentei reclamação na agencia de Arcozelo -Gaia do meu banco que a registou e deu seguimento para a SIBS.
Foi-me informado que na terça-feira seguinte o dinheiro seria restituído na minha conta.

Até hoje isso ainda não aconteceu.

Estão em falta 170 €uros que o MB do Modelo de Gulpilhares "comeu”.

A quem pedir responsabilidades? À Policia Judiciária?

Que confiança estas máquinas dão, afinal, aos clientes?

Entretanto em conversa com o próprio banco foi-me dito que era recorrente, daquela caixa MB e naquele sítio, o sucedido.

Contactada a SIBS empresa que gere as referidas caixas MB foi-me informado que era da responsabilidade do banco em causa a devolução da quantia em falta.

Em que ficamos?

Quanto tempo, numa época em que tudo é informatizado, em que despedem funcionários para serem substituídos por máquinas, vai demorar a restituição dos €uros que não me foram entregues?

Numa época em que se cobram juros por tudo e por nada, vão pagar-me juros do tempo que vão reter o dinheiro?

Na era da informática em que quase tudo é cobrado instantâneamente será possível haver tantas reclamações que impeçam as entidade competentes a resolverem casos destes?

Ou será que só pensam nos seus benefícios e os exijam?

É coincidência, erro da máquina, ou propositadamente, que acontecem estas situações?

E quem salvaguarda os nossos direitos?

 

Amar devagar...

John Gannam

amo.te devagar
ao pequeno almoço
servido
com chá torradas

e uma colher de desejo

doce


Gabriela Rocha Martins
in .delete.me.
inverno 2008,
a págs. 20



Ilustração de John Gannam

O apanhador de desperdícios

Martha Barros

 

 

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

 

Poema de Manoel de Barros

in, "Antologia comentada da poesia brasileira do século 21”,

a págs. 73/74

 

 

Espelho de duas faces

Espelho de duas faces

 

Ajuda-me a esquecer as tuas faltas
e a ignorar os teus crimes
para melhor te amar.
Dá-me a febre em que te exaltas
e o que nos olhos exprimes
quando não sabes falar.

Espelho de duas faces, plana e curva:
és, e não és.
Imagem dupla, ora límpida, ora turva,
numa te afirmas, noutra te negas, em ambas te crês.

Queria sentir-te em outros sentidos.
Queria ver-te sem olhos e ouvir-te sem ouvidos.
E queria as tuas mãos numa aleluia fraterna.
Essas mãos que ainda ontem, de manhã, aturdidas,
com duas varas secas e folhas ressequidas
arrepiaram de luz as sombras da caverna.

 

António Gedeão in, Poesia Completas,

(1956-1967)
a págs. 11