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Eternamente Menina

Eternamente Menina

2021 - Ano Novo

30.12.20, Otília Martel
ANO NOVO  Meia-noite. Fim de um ano, início de outro. Olho o céu: nenhum indício. Olho o céu: o abismo vence o olhar. O mesmo espantoso silêncio da Via-Láctea feito um ectoplasma sobre a minha cabeça nada ali indica que um ano novo começa. E não começa nem no céu nem no chão do planeta: começa no coração. Começa como a esperança de vida melhor que entre os astros não se escuta nem se vê nem pode haver: que isso é coisa de homem esse bicho estelar que sonha (e luta). F (...)

Ladainha dos Póstumos Natais

23.12.20, Otília Martel
  Há-de vir um Natal e será o primeiro em que se veja à mesa o meu lugar vazio Há-de vir um Natal e será o primeiro em que hão-de me lembrar de modo menos nítido Há-de vir um Natal e será o primeiro em que só uma voz me evoque a sós consigo Há-de vir um Natal e será o primeiro em que não viva já ninguém meu conhecido Há-de vir um Natal e será o primeiro em que nem vivo esteja um verso deste livro Há-de vir um Natal e será o primeiro em que terei de novo o Nada a (...)

Lúbrica...

04.11.20, Otília Martel
  Mandaste-me dizer, No teu bilhete ardente, Que hás de por mim morrer, Morrer muito contente. Lançastes, no papel As mais lascivas frases; A carta era um painel De cenas de rapazes! Ó cálida mulher, Teus dedos delicados Traçaram do prazer Os quadros depravados! Contudo, um teu olhar É muito mais fogoso, Que a febre epistolar Do teu bilhete ansioso: Do teu rostinho oval Os olhos tão nefandos Traduzem menos mal Os vícios execrandos. Teus olhos sensuais, Libidinosa Marta, Teus (...)

AMIZADES

10.09.20, Otília Martel
Quantos anos decorreram desde que conheci a Zica Caldeira Cabral? Tantos que nem recordo...  Conversar com ela era abrir um mundo de palavras, de conhecimento, de ternura. Separadas pela distancia e pela vida que por vezes pode ser cruel a amizade que nos unia era como um jardim que florescia. Acompanhou-me num momento bonito da minha vida que aqui  (...)

FONTE - Herberto Helder

17.06.20, Otília Martel
  Fonte No sorriso louco das mães batem as leves gotas de chuva. E bate-lhes nas caras, o amor leve. O amor feroz. E as mães são cada vez mais belas. Pensam os filhos que elas levitam. Flores violentas batem nas suas pálpebras. Elas respiram ao alto e em baixo. São silenciosas. As mães são as mais altas coisas que os filhos criam, porque se colocam na combustão dos filhos, Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado vendo tudo... (excerto do poema) Herberto Helder, (...)

EFEITOS SECUNDÁRIOS

24.04.20, Otília Martel
É bom estarmos atentos ao rodar do tempo o outono por exemplo tem recantos entre dia e noite ao pé de certos troncos indecisos cercados um por um de sombras envolventes Rente às árvores vamos, húmidos humildes Dizem que é outono. Mas que época do ano toca nestas paredes que roçamos como gente que vai à sua vida e não avista o mar, afinal símbolo de quanto quer, ó Deus, ó mais redonda boca para os nomes das coisas para o nome do homem ou o homem do homem? Banho lustral de (...)

Trago-te na minha vida

10.04.20, Otília Martel
Pintura de Maria de Fátima Santos   13   Trago-te na minha vida como quem escuta os passos musicais do tempo, como as manhãs tocam a paisagem...   e amplamente te recebo dos horizontes da dor que é a nossa distância de seres quase tudo.   Trago-te na minha vida como é possível a noite trazer o luar.   Que movimento guia a tua essência inacabada? Onde te cumpres perguntando a vida? (...)

Em tempo de Primavera

04.04.20, Otília Martel
AMANHECER   Fiz-me amanhecer na penumbra da palavra  adormecida, no espanto de uma realidade anunciada.   Fiz-me lua cheia na serenidade do olhar em lágrimas sorvidas de alegria, no encantamento do enlaço que, por magia, fez nascer Primavera  no ocaso do dia. Pintura de Sonia von Walter

O que dói às aves

11.03.20, Otília Martel
  E chega um dia em que reconhecemos finalmente a injustiça das palavras - exactamente as mesmas para quem vai e para quem fica   um dia em que não há mais passado para contar nem mais futuro para viver   apenas uma velha cantiga de embalar uma casa desaparecida e este limbo ocasional onde o corpo espera que anoiteça   Alice Vieira