Onde estavas tu?...
Ao fazer uma busca aos meus arquivos encontrei este texto, escrito em 23 de Abril de 2004, num Passatempo de um Fórum.
A segunda parte do texto foi em resposta a um comentário escrito acerca do assunto.
Não é um texto político. É um texto de emoções e sentimentos dedicado a uma grande Amiga que morreu de parto.

Onde estavas tu?...
A viagem leva-a ao mundo dos sonhos. Aqueles sonhos que quer esquecer. Navega por caminhos dúbios, sentindo a chuva escorrer-lhe pelo rosto.
Será a chuva ou serão as lágrimas que lhe molham o rosto, colando-lhe os cabelos molhados, que ela afasta, com um gesto calmo? Recorda o seu primeiro amor. O primeiro beijo. O primeiro marido. A primeira mágoa. De menina se fez mulher. De uma forma suave e ao mesmo tempo trágica.
Trágica? Não. Isso soa a drama.
E a vida dela, não foi um drama. Foi tudo menos um drama.
Porque foi real. Sentiu-a no corpo. E os dramas, são filmes. Ficção, retirada de uma mente qualquer. Mas ela estava lá. Foi tudo real.
Sentiu em Abril. O pânico de algo que ela ao princípio, não entendeu!
- Vai para casa, disseram-lhe. Fecha tudo. Olha que estás grávida.
Sozinha, abalou para casa. E lá ficou.
O rádio transmitia canções, mas ela pensava: temos uma revolução? Que irá acontecer?
Canta uma canção baixinho. Acaricia a barriga nua.
Está sossegada... aqui estás a salvo.
E ela? Estaria a salvo?
Quanto tempo passou assim?
Viajou no tempo. Na distância. Quantas viagens, depois dessa?
Aquela vez, que galgou quilómetros e quilómetros, para ficar lá, parada, sentindo a chuva cair. No seu rosto?
Talvez!
Afinal, a chuva é salgada, como o são as lágrimas.
Quantas vezes desejou voltar atrás.
Aninhar-se no colo do Pai e dizer-lhe: não me deixes crescer...

Não me fales em ciberespaço, fala-me do Mundo.
Onde é tão difícil ser-se Mulher. Onde a luta constante para se conquistar um espaço próprio, é comparada... à luta de titãs.
Não me fales em monitores desligados. Fala-me do Mundo desligado de afectos. Desligado de sensibilidade. Desligado da própria Vida.
Fala-me da fome que passei, por orgulho, de não pedir nada a ninguém.
Fala-me dos empregos que tive. Das noites que não dormi. Dos homens que me assediavam. Dos ódios que conquistei.
Fala-me disso tudo e eu falarei da ventura de ser Mãe.
Das lágrimas que chorei. De raiva. De amor. De dor e de orgulho.
Falar-te-ei do amor que dei, mesmo que nem tenha a certeza de ser correspondido.
Falar-te-ei de ganhar e perder. De amor e despedida.
Falar-te-ei de saudade. Falar-te-ei de Verdade.
Não me fales de bits, nem de monitores desligados.
Hoje, sorrio e pergunto:
-Onde estavas tu, em Abril, filha?
Ela sorri:
-Na tua barriga, Mãe.
Já passaram quase 30 anos e duas crianças, estavam ali, uma dentro da outra, escutando uma canção que tocava incessantemente no rádio da sala.
Não me fales em bits.
Escuta a canção e a emoção!
