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Eternamente Menina

Eternamente Menina

25.04.05

Onde estavas tu?...


Otília Martel

Ao fazer uma busca aos meus arquivos encontrei este texto, escrito em 23 de Abril de 2004, num Passatempo de um Fórum.
A segunda parte do texto foi em resposta a um comentário escrito acerca do assunto. 

Não é um texto político. É um texto de emoções e sentimentos dedicado a uma grande Amiga que morreu de parto.

25 de abril - pintura de mural

 Onde estavas tu?...

A viagem leva-a ao mundo dos sonhos. Aqueles sonhos que quer esquecer. Navega por caminhos dúbios, sentindo a chuva escorrer-lhe pelo rosto.

Será a chuva ou serão as lágrimas que lhe molham o rosto, colando-lhe os cabelos molhados, que ela afasta, com um gesto calmo? Recorda o seu primeiro amor. O primeiro beijo. O primeiro marido. A primeira mágoa. De menina se fez mulher. De uma forma suave e ao mesmo tempo trágica.

Trágica? Não. Isso soa a drama.

E a vida dela, não foi um drama. Foi tudo menos um drama.

Porque foi real. Sentiu-a no corpo. E os dramas, são filmes. Ficção, retirada de uma mente qualquer. Mas ela estava lá. Foi tudo real.

Sentiu em Abril. O pânico de algo que ela ao princípio, não entendeu!

- Vai para casa, disseram-lhe. Fecha tudo. Olha que estás grávida.

Sozinha, abalou para casa. E lá ficou.

O rádio transmitia canções, mas ela pensava: temos uma revolução? Que irá acontecer?

Canta uma canção baixinho. Acaricia a barriga nua.

Está sossegada... aqui estás a salvo.

E ela? Estaria a salvo?

Quanto tempo passou assim?

Viajou no tempo. Na distância. Quantas viagens, depois dessa?

Aquela vez, que galgou quilómetros e quilómetros, para ficar lá, parada, sentindo a chuva cair. No seu rosto?

Talvez!

Afinal, a chuva é salgada, como o são as lágrimas.

Quantas vezes desejou voltar atrás.

Aninhar-se no colo do Pai e dizer-lhe: não me deixes crescer...

Mulher, Onde estavas tu

 

 

Não me fales em ciberespaço, fala-me do Mundo.

Onde é tão difícil ser-se Mulher. Onde a luta constante para se conquistar um espaço próprio, é comparada... à luta de titãs.

Não me fales em monitores desligados. Fala-me do Mundo desligado de afectos. Desligado de sensibilidade. Desligado da própria Vida.

Fala-me da fome que passei, por orgulho, de não pedir nada a ninguém.

Fala-me dos empregos que tive. Das noites que não dormi. Dos homens que me assediavam. Dos ódios que conquistei.

Fala-me disso tudo e eu falarei da ventura de ser Mãe.

Das lágrimas que chorei. De raiva. De amor. De dor e de orgulho.

Falar-te-ei do amor que dei, mesmo que nem tenha a certeza de ser correspondido.

Falar-te-ei de ganhar e perder. De amor e despedida.

Falar-te-ei de saudade. Falar-te-ei de Verdade.

Não me fales de bits, nem de monitores desligados.

Hoje, sorrio e pergunto:

-Onde estavas tu, em Abril, filha?

Ela sorri:

-Na tua barriga, Mãe.

Já passaram quase 30 anos e duas crianças, estavam ali, uma dentro da outra, escutando uma canção que tocava incessantemente no rádio da sala.

Não me fales em bits.

Escuta a canção e a emoção!

 

 

 

 

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