Momentos...
A chuva parou repentinamente, dando lugar a um sol brilhante. Avancei pelo passeio da Praça, de olhos semicerrados, cabeça levantada, sentindo o calor no rosto.
Um grito fez-me parar, bruscamente: Cuidado!...
Abri os olhos e deparei-me com a gaivota. Planava a escassos centímetros de mim, batendo as asas com firmeza.
O espanto paralisou-me. O primeiro pensamento foi: vai atacar-me!
Mas não. Ela ficou ali parada, olhando na minha direcção, fixamente. Senti-lhe o olhar e de repente, levantou voo e rasou a minha cabeça, quase tocando, com as pontas das patas, o meu cabelo.
A cena foi no mínimo, surrealista!
Respirei fundo e olhei em volta.
Um homem (penso que o grito terá vindo dele) olhava para mim, risonho.
Um casal oriental (talvez chinês), com um sorriso indefinível no rosto, abanava a cabeça. Algumas pessoas tinham parado, a olhar a cena.
Uma jovem, pergunta-me com voz doce:
- Está bem? Está pálida! Achei que a gaivota a fosse atacar…
Sorri, dizendo estar tudo bem, nem sequer me tinha assustado. O espanto foi tamanho, que nem tivera tempo para isso.
Mas estremeci. Um pressentimento de que algo estava para acontecer.
“Vejo” os olhos da gaivota fixos no meu olhar. Impressionante. Nunca nada parecido me tinha sucedido!
Costumo dizer que nada acontece por acaso. Porque me terá isto acontecido?
Um pensamento “maluco” ocorre-me: - Será que a morte me vem buscar?
Sorrio.
Que disparate. Pensar na morte, num dia de sol.
Prossigo o meu caminho…
Na Rua de Ceuta, paro na montra de uma velha livraria. Apetece-me comprar um livro. Talvez aqui encontre, aqueles que emprestei e nunca me foram devolvidos. Tenho sorte!
Tento distrair o pensamento e a conversa recai, precisamente, no tema dos livros emprestados e nunca devolvidos. Afinal, não é só a mim que isso acontece!
As funcionárias da livraria eram uma simpatia e, por momentos, esqueci o ocorrido.
Eram horas de voltar ao corredor do Hospital...

