Eternamente Menina

Abril 06 2005
Olhei a Cidade desvirtuada. Já pouco existe da que outrora me acolheu, ainda adolescente, e da beleza que me encantava. Que resta do Porto que conheci?
 

Largo dos Leões - Porto

 

 

A lembrança do sol quente a bater-me no rosto enquanto estacionava o carro, fez com que não me apetecesse ficar naquele corredor frio.
Até porque me entristecia o olhar da jovem que "estacionara" a cadeira de rodas na minha frente e que me olhava séria.
Tentei sorrir-lhe, num sorriso tímido, algo envergonhado. Era bonita. Uns traços finos, nuns olhos negros, grandes, de longas pestanas. Os cabelos caíam-lhe pelos ombros, castanhos, sedosos.
Ela continuou a olhar para mim, e de repente diz-me:
- Está sol lá fora. Não te fazia bem passeares um pouco?
O meu coração disparou. Ela tinha lido o meu pensamento. Sorriu-me. Libertei o meu sorriso e retribui-lhe.
Ficámos as duas olhando-nos, sorrindo…
- Vai lá…
Abandonei o corredor cinzento e frio de encontro ao sol.
- Vai lá…
Encarei o sol. Como é bom senti-lo.
Ao descer a escadaria do hospital, o sol inundou o meu corpo e a minha alma.
- Vai lá…
E fui… ao encontro de uma cidade que, não sendo minha por nascimento, aprendi a amar.
Há quantos anos os meus passos não me levavam por aquelas ruas?
Não reconheço quase nada.
Aquelas ruas que eu conheci tão bem em tempos, estão completamente descaracterizadas.
O preço a pagar pela exigência de tempos modernos?
O Largo dos Leões já não é como o recordava quando o vi pela primeira vez menina e moça. Perdeu toda a sua imponência. Modernices, penso nostálgica.
Não gosto do actual.
Detive-me logo ali à entrada de Cedofeita.
A minha paixão por miniaturas deixou-me pregada à montra.
A beleza, de certas peças pequenas, deixa-me fascinada.
Que mão, que dedos, que sensibilidade consegue construir tamanha beleza?
Perco conta aos segundos que ali estive, por isso voltei para trás.
Entro na Rua Sá de Noronha. O Solar Moinho de Vento ainda ali está. Que saudades… aquela comida… a companhia… a alegria… tempos passados.
Na Rua das Carmelitas entro no meu "templo": a Livraria Lello.
A fachada neogótica sempre me impressionou mas o fascínio está no seu interior.
Sorrio para o cartaz do meu Poeta favorito.
Pessoa mantém-se impávido, alheio aos olhares que lhe deitam na subida da escadaria.
Gosto de sentir o cheiro dos livros, gosto da arquitectura, da suavidade da madeira trabalhada… gosto de relembrar os tempos em que aqui vinha e me sentava na escadaria, de nariz para o ar, admirando, até que alguém me dizia:
- Menina, não pode estar aí!
Sorria sempre, malandra.
- Pois não posso. Mas adoro!
Paguei o livro que escolhi e voltei a encarar o sol.
Não resisti à montra do início da rua.
Os meus olhos deviam de brilhar, quando entrei no corredor cinzento e frio.
Uma voz diz-me:
- Onde foste? Demoraste!
Mostrei o embrulho.
- Cometeste alguma loucura? Pelo teu olhar…
Não é tão bom cometerem-se loucuras num dia de sol?
Num relance, procuro a menina dos olhos negros.
Já não estava lá…


(Hoje recordei-me deste dia…)   

publicado por Otília Martel às 15:00

amei...
nina a 5 de Dezembro de 2015 às 01:00

Mto bonito :)

Que sejas smp menina e que o sol esteja sempre lá (mas não está pois não?)...

Gostei do teu blog.Angel
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Anónimo a 6 de Abril de 2005 às 15:24

Também gosto de manter a menina que há em mim... Mas cada vez se torna mais dificil...Adivinha!
(http://http//adivinha.blogs.sapo.pt)
(mailto:aromero21@iol.pt)
Anónimo a 6 de Abril de 2005 às 15:36

...um passeio pelo Porto, nostálgico e com uma pontinha de emoção, relatado por uma menina marota metida a "cronista urbana" e muito simpática.

Abraço amigo e intés!!porquinho da india
</a>
(mailto:baconfrancis@netcabo.pt)
Anónimo a 6 de Abril de 2005 às 16:25

Olá! Vim para retribuir o simpático comentário que deixaste no nosso blog e agradecer.
Estive a ler alguns post que aqui publicaste e devo dizer-te que acima de tudo o que sobressai em ti é a tua sensibilidade. :)
Gostei muito. Volto em breve.
Até lá beijinhos :)Beatas
(http://www.tribunalbeatas.blogspot.com)
(mailto:www.tribunal_beatas@hotmail.com)
Anónimo a 6 de Abril de 2005 às 16:27

Querida Menina
Realmente a cidade já não passa pela romaria das livrarias... chegava a visitá-las a todas de seguida. Agora, a baixa é longínqua e os templos estão incarcerados noutros templos maiores e mais à mão.
Um beijo
DanielDaniel Aladiah
(http://www.aladiah.blogspot.com)
(mailto:aladiah2005@hotmail.com)
Anónimo a 6 de Abril de 2005 às 16:32

Palavras para quê? É uma menina marota, Lisboeta pois então! Que já não me consegue surpreender pelo seu sentido observador, pela suas escritas reveladores de tantos sentidos e tantas emoções que apenas revelam sentimentos de uma simples menina a viver no Porto.

Beijos marotos!
Friedrich
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Anónimo a 6 de Abril de 2005 às 16:59

Foi hoje, a primeira vez que encontrei esta página. Espreitei e gostei. Com mais tempo hei-de voltar em visita. Boa sorte.paraquedista
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Anónimo a 6 de Abril de 2005 às 17:24

Olá. É sempre bem vinda, por vezes tb passo no teu blog, mas tens sempre tantos comentários q fico sem palavras ehehe. Sobre o tema em referência, por me ser caro falei nele, não por mera perspectiva estética, até porque estou +- envolvido de forma voluntária numa coisa próxima, mas n é questão para se falar aqui,bjsJosé
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Anónimo a 6 de Abril de 2005 às 17:38

Passo todos os dias pelo Hospital Stº António, a caminho do emprego.
Escrevi há dias sobre o "meu" Porto, sobre a forma como ele está diferente, e como isso me deixa triste.
E tu andas desaparecida do nosso blog e nem leste (ou leste, mas não comentaste ;)).

Conheço muito bem os recantos por onde andaste.
Beijinhos

ps.: espero que esteja tudo bem com a pessoa que estava lá no hospitalVulcão
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(mailto:Vulcao_Bahia@sapo.pt)
Anónimo a 6 de Abril de 2005 às 17:49

Sobre Mim...
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