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Eternamente Menina

Eternamente Menina

31.01.05

Esta é a Cidade...


Otília Martel

[Charles C. Ebbets]

 

Esta é a Cidade, e é bela.
Pela ocular da janela
foco o sémen da rua.
Um formigueiro se agita,
se esgueira, freme, crepita,
ziguezagueia e flutua.

Freme como a sede bebe
numa avidez de garganta,
como um cavalo se espanta
ou como um ventre concebe.

Treme e freme, freme e treme,
friorento voo de libélula
sobre o charco imundo e estreme.
Barco de incógnito leme
cada homem, cada célula.
É como um tecido orgânico
que não seca nem coagula,
que a si mesmo se estimula
e vai, num medido pânico.

Aperfeiçoo a focagem.
Olho imagem por imagem
numa comoção crescente.
Enchem-se-me os olhos de água.
Tanto sonho! Tanta mágoa!
Tanta coisa! Tanta gente!
São automóveis, lambretas,
motos, vespas, bicicletas,
carros, carrinhos, carretas,
e gente, sempre mais gente,
gente, gente, gente, gente,
num tumulto permanente
que não cansa nem descança,
um rio que no mar se lança
em caudalosa corrente.

Tanto sonho! Tanta esperança!
Tanta mágoa! Tanta gente!

 

(António Gedeão)

30.01.05

Desafiando...


Otília Martel

...e,  apesar, do meu PC estar a tentar boicotar-me a acção, (até comeu a resposta que dei à Lique), e o Sapo não me ter deixado entrar...até agora...tenho a dizer-vos, que como  não sou, de desistências fáceis, aqui estou a colocar o desafio, que a minha querida Lique me fez,  e está lá no Blog dela,  e eu não deixo de o querer colocar aqui.

Do BLOG da LIQUE:

janeiro 29, 2005

Acontece-me cada coisa...

Estava eu por aqui muito sossegadinha a gozar o meu fim de sábado, quando uma "amiga" (ficaste marcada...) me desafiou para responder a este maldito questionário que circula por aí e há-de calhar a toda a gente da blogoesfera. Ora eu não gosto de fugir a desafios. Mas, lamentavelmente, percebo muito pouco de inglês .... E então, claro, as minhas respostas reflectem aquilo que eu consegui perceber. Desculpem lá se não era isto que esperavam.
1. HAVE YOU EVER USED TOYS OR OTHER THINGS DURING SEX? Toys... O meu inglês é tão fraquinho, mas tão fraquinho que só percebi que a pergunta tem a ver com o Toi e com sexo. Será que isto é um questionário sobre o sex-appeal dos cantores pimba? Se é, olhem, eu dou-lhe zero.

2. WOULD YOU CONSIDER USING DILDOS OR OTHER SEXUAL TOYS IN THE FUTURE? Aqui não percebi mesmo nada, mas continuam a falar de Tois... deixemos isso! Dildos, não sei, parece-me uma palavra engraçada, soa-me assim a patinho de borracha. Que é que isso tem a ver com o Toi e com sexo? Eu gosto de patinhos de borracha mas é no banho!

3. WHAT IS YOUR KINKIEST FANTASY YOU HAVE YET TO REALIZE? Aqui só percebi mesmo fantasia. E tudo fez sentido: estamos no Carnaval. Afinal isto é para me mascarar de patinho de borracha e ir ter com o Toi? Mas afinal que é que o sexo tem a ver com isso? Ai, se eu tivesse estudado mais o inglês...

4. WHO GAVE YOU THIS DILDO? A gaja que me tramou com isto foi, como é óbvio a Titas. E eu vou ficar a magicar a minha vingança...

5. WHO ARE THE ONES TO RECEIVE THIS DILDO FROM YOU? Pois agora, eu passo esta "batata quente" às minhas queridas amigas:

Vulcão
Maria Branco
Seila
Menina Marota

e, para variar (até porque já muitos homens responderam), dois homens:

OrCa
Porquinho da Índia/Bertus

que espero aceitem o desafio.

Uff... desta já me safei!

Pois claro... safaste-te e passas para mim...  Pois aí vai...a minha resposta...

1. HAVE YOU EVER USED TOYS OR OTHER THINGS DURING SEX?

- Mas isso não é aquela coisa que se arrabita toda, quando eu não estava nem para aí virada? eheheh

2. WOULD YOU CONSIDER USING DILDOS OR OTHER SEXUAL TOYS IN THE FUTURE?

- Futuro? Qual futuro? As eleições ainda não se realizaram, como posso saber?

3. WHAT IS YOUR KINKIEST FANTASY YOU HAVE YET TO REALIZE?

- Quando era miúda, queria ir ao pólo Norte, conhecer os esquimós... será que isso é uma fantasia?

4. WHO GAVE YOU THIS DILDO?

- Como diz o meu filho... mas tu achas que vou "chibar-me?" aqui? eheheh ora toma lá!

5. WHO ARE THE ONES TO RECEIVE THIS DILDO FROM YOU?

- O Porquinho da Índia deu-me uma ideia... eheheh e o "presente envenenado" vai...

vai...

vai...

para o DonBadalo!

eheheh quero só ver como o ilustre cavalheiro vai descalçar esta bota!!! eheheh

Abraço e bom começo de semana!

 

28.01.05

Os Poetas...


Otília Martel

Fernando Pessoa visto por Almada Negreiros

Fernando Pessoa visto por Almada Negreiros 

 

Nunca os vistes
Sentados nos cafés que há na cidade,
Um livro aberto sobre a mesa e tristes,
Incógnitos, sem oiro e sem idade?
Com magros dedos, coroando a fronte,
Sugerem o nostálgico sentido
De quem rasgasse um pouco de horizonte
Proibido...
Fingem de reis da Terra e do Oceano
(E filhos são legítimos do vício!)
Tudo o que neles nos pareça humano
É fogo de artificio.
Por vezes, fecham-lhes as portas
- Ódio que a nada se resume -
Voltam, depois, a horas mortas,
Sem um queixume.
E mostram sempre novos laivos
De poesia em seu olhar...
Adolescentes! Afastai-vos
Quando algum deles vos fitar!

 

[Pedro Homem de Mello in Os Poetas]

27.01.05

As cores do pensamento


Otília Martel

 

 

No tempo das cores impossíveis
o mundo vai ter tantos tons
que ninguém vai fechar os olhos.

Não vai ser possível sonhar…
o sonho vai ser a vida
a vida vai ser um sonho.

No tempo das cores impossíveis
o azul será tão claro, que quase será branco
e o vermelho tão rubro, que quase será preto.

No tempo das cores impossíveis
as cores vão tomar conta do mundo
e serão tantas, que não poderemos contá-las.

(Mas quem contaria as cores?)

No tempo das cores impossíveis
muitas coisas vão acontecer
e ninguém mais vai ficar sozinho.

Nesse tempo de cores impossíveis
a água será salmão e o salmão será azul.
As rosas serão verdes e as matas serão púrpura.

Os amigos vão andar de mãos dadas pelas ruas, sozinhos...

E quem não quiser olhar pode pintá-los de cores invisíveis
no pensamento... na memória…
Mas eles terão as cores mais bonitas e as mais impossíveis.

No tempo das cores impossíveis

o mundo terá as cores que já existem no nosso coração
as que já existem dentro do nosso pensamento.

 

26.01.05

Ó doce perspicácia dos sentidos...


Otília Martel

 

(Edgar Degas - Blue Dancers) 

 

  Ó doce perspicácia dos sentidos!
Versão mais táctil que apressados dedos
sempre na treva tropeçando em medos
que só o olfacto os ouve definidos!

Audível sexo, corpos repetidos,
gosto salgado em curvas sem segredos
a que outras acres e secretas - ledos,
tranquilos, finos ásperos rangidos -

se ligam, mancha a mancha, lentamente...
Perfume túrgido, macio, tépido,
sequioso de mão gélida e tremente...

Vago arrepio que se escoa lépido
por sobre os tensos corpos tão fingidos...
Ó doce perspicácia dos sentidos!

 

Jorge de Sena

25.01.05

Solidão


Otília Martel

  Tamara de Lempicka - La Dormeuse  

De saudade
em saudade 
se constrói
um espaço frio
vazio, calado.

De esperança 
em esperança, 
destruída,
se constrói
um olhar sem olhos
igual
para gente e coisas.

De adeus
em adeus
abafados pelo orgulho
corajosamente só 
se constrói
um chorar sem lágrimas
e um lamento
feito sorriso.

Das palavras
que ficam sempre
por dizer
se constrói
uma boca
fechada ao amor
e aberta ao egoismo

Da confusão 
de sentimentos
e da vontade
do homem
se constrói
uma mulher
de nome
solidão.
23.01.05

A Condição Humana


Otília Martel

René Magritte, La condición humana

René Magritte, La condición humana

Óleo sobre tela, 1935

 

Não há revolta no homem
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.

Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.

Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.

Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.

E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de saber
o que só então se sabe
e não se pode contar.

 

Natália Correia

in, "Do sentimento trágico da vida"

21.01.05

O meu outro Eu


Otília Martel

 

 Pierre-Auguste Renoir

 

Sinto a água morna escorrer-me no corpo. Fecho os olhos, encosto as palmas das mãos, à parede molhada e estico os braços... É uma sensação agradável, sentir a água escorrer pelos cabelos, perdendo-se corpo abaixo...

Fecho lentamente a torneira, enquanto o meu perfil transparece no grande espelho ao fundo da parede. Miro-me de olhos semi-cerrados. O meu corpo brilha, envolto ainda,  em pequenos pontos líquidos. Olho de alto a baixo, o meu corpo nu e molhado. Sorrio. Nem sei porquê. Envolta no toalhão branco, esfrego docemente o leite corporal. Que sensação estranha...Sinto o  meu peito firme, como rocha, num corpo de garota adormecida...Seco rápidamente o meu  cabelo, rebelde nos seus caracóis loiros...

Num ímpeto entro no quarto e procuro na gaveta umas meias de seda pretas. Sinto a maciez da pele,  enquanto procuro, com o olhar, o fato que vou vestir.

Sinto-me como estando em metempsicose. Muito lentamente visto-me , reflectindo a minha imagem no espelho. Numa mágica de mãos, apanho o  cabelo e, prendo-o duma só vez,  tornando a minha nuca mais vísivel...

Sinto-me neste instante, novamente Eu... Mulher inteira, apaixonada, quente, louca por um toque, por uma carícia...

Há quanto tempo, meu Deus, o meu corpo não é tocado...sinto-me tremer de desejo... e nisto, uma voz surpreende-me:

- Então, amor, demoras muito tempo a descer? Que estás a fazer?

Num instante, volto à realidade! Retiro a roupa do corpo, envergo uma saia de bombazine preta, a minha camisola preferida de lã poveira, as botas rasas de camurça e solto num toque o cabelo, que me cai revolto nos ombros...

Olho a imagem no espelho que me sorri maliciosamente! Retribuo o sorriso! Voltei a ser o outro Eu... Uma mulher sem corpo, sem desejos, sem carícias... mas com uma missão por cumprir.

Desço lentamente, ao encontro da voz que me chama... sorrio com um carinho muito especial para os olhos que indagam a minha demora...

- Já estou aqui. Vês? Não demorei nada... foi um banho rápido!

21.01.05

Mar...


Otília Martel

Imagem de Mauro Mars

 

 

Como de costume o meu passeio habitual é junto ao mar. Sentir aquele cheiro a maresia, olhar o azul profundo e a espuma branca, só é superada esta sensação, pelo cheiro do café acabado de moer e quente na chávena a escaldar.

Quis oferecer-vos um pouco daquela visão, mas não a consegui carregar comigo. Então sorrateiramente fui ali ao  http://mauromars.weblog.com.pt/ e roubei-lhe esta foto, num espaço novo dedicado à fotografia. Espero que ele não se zangue, mas queria deixar aqui uns grãos de areia, para que possam seguir este caminho e respirar um pouco deste ar...
 

Bom Fim de Semana...com sabor a Mar...

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