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Eternamente Menina

Eternamente Menina

17.02.05

Deixa ficar a flor...


Otília Martel

 

Deixa ficar a flor,
A morte na gaveta,
O tempo no degrau.

Conheces o degrau:
O sétimo degrau
Depois do patamar;
O que range ao passares;
O que foi esconderijo
Do maço de cigarros
Fumado às escondidas...

Deixa ficar a flor.

E nem murmures. Deixa
O tempo no degrau,
A morte na gaveta.

Conheces a gaveta:
A primeira da esquerda,
Que se mantém fechada.
Quem atirou a chave
Pela janela fora?
Na batalha do ódio,
Destruam-se, fechados,
Sem tréguas, os retratos!

Deixa ficar a flor.

A flor? Não a conheces.
Bem sei. Nem eu. Ninguém.

Deixa ficar a flor.

Não digas nada. Ouve.
Não ouves o degrau?

Quem sobe agora a escada?
Como vem devagar!
Tão devagar que sobe...

Não digas nada. Ouve:
É com certeza alguém,
Alguém que traz a chave.

David Mourão Ferreira, in  Obra Poética,

a págs. 126/127

16.02.05

Porque não chorei pela irmã Lúcia... ou porque estou zangada com Deus...


Otília Martel

Irmalucia

Meu Deus perdoa-me por não ter lágrimas para chorar pela perda da tua serva Lúcia falecida aos 97 anos.
Mas… tantas lágrimas já derramei nestes últimos doze meses...

Confesso-te: não sei ser hipócrita!

Por isso te digo, aqui e agora, que estou zangada contigo!

– Porquê? - perguntar-me-ás...

– Como podes ter esquecido? Não ouves os lamentos? Não sentes as dores?

– Como podes ter esquecido as crianças que tanto dizias amar, mortas na Palestina, em Israel, em África, na Ásia... e, em tantos outros sítios... onde o seu sangue, escorre ainda pelas pedras frias dos caminhos?

– Como podes ter esquecido as mães da Etiópia, da Irlanda do Norte, do Afeganistão, do Iraque, de Timor... de todo aquele mundo que numa guerra impiedosa, mata, viola, estropia inocentes, sem dó nem piedade?

– Onde estavas tu quando o mar... esse Tsunami gigantesco, varreu dezenas de quilómetros, levando na sua frente milhares de pessoas e todos os seus haveres?

- Onde estavas tu, quando dezenas de crianças em todo o mundo sofreram e morreram de doenças incuráveis e ninguém lhes pôde valer?

– Onde estás tu, quando os velhos morrem abandonados nas ruas ao frio gélido da noite?

É verdade!

Já não tenho lágrimas para chorar, quando vejo tantos horrores acontecerem no Mundo...tanto massacre, tanta dor... e tu não estás lá!

Perdoa-me, meu Deus, eu não perdi a Fé...só que não tenho mais lágrimas para chorar.

Como posso ser hipócrita e lamentar uma vida, que morreu em Paz, no aconchego de um lar, protegida por Ti... quando tantas outras morrem doentes e desamparadas?

A história da Igreja está cheia de fatalismos, de dores, de perseguições... de miséria e dor... e quem chora, por esses pobres cristãos?

Não te falo de mim... nem dos meus... não tenho esse direito, quando vejo que maiores dores existem no Universo!

É por eles que eu choro...

Perdoa-me...se estou zangada contigo...

15.02.05

Porque me apeteceu... algo diferente...


Otília Martel

 

HINO A PÃ
(de Mestre Therion *)


Vibra do cio subtil da luz,
Meu homem e afã
Vem turbulento da noite a flux
De Pã! Iô Pã!
Iô Pã! Iô Pã! Do mar de além
Vem da Sicília e da Arcádia vem!
Vem como Baco, com fauno e fera
E ninfa e sátiro à tua beira,
Num asno lácteo, do mar sem fim,
A mim, a mim!
Vem com Apolo, nupcial na brisa
(Pegureira e pitonisa),
Vem com Artêmis, leve e estranha,
E a coxa branca, Deus lindo, banha
Ao luar do bosque, em marmóreo monte,
Manhã malhada da àmbrea fonte!
Mergulha o roxo da prece ardente
No ádito rubro, no laço quente,
A alma que aterra em olhos de azul
O ver errar teu capricho exul
No bosque enredo, nos nás que espalma
A árvore viva que é espírito e alma
E corpo e mente - do mar sem fim
(Iô Pã! Iô Pã!),
Diabo ou deus, vem a mim, a mim!
Meu homem e afã!
Vem com trombeta estridente e fina
Pela colina!
Vem com tambor a rufar à beira
Da primavera!
Com frautas e avenas vem sem conto!
Não estou eu pronto?
Eu, que espero e me estorço e luto
Com ar sem ramos onde não nutro
Meu corpo, lasso do abraço em vão,
Áspide aguda, forte leão -
Vem, está fazia
Minha carne, fria
Do cio sozinho da demonia.
À espada corta o que ata e dói,
Ó Tudo-Cria, Tudo-Destrói!
Dá-me o sinal do Olho Aberto,
E da coxa áspera o toque erecto,
Ó Pã! Iô Pã!
Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã Pã! Pã.,
Sou homem e afã:
Faze o teu querer sem vontade vã,
Deus grande! Meu Pã!
Iô Pã! Iô Pã! Despertei na dobra
Do aperto da cobra.
A águia rasga com garra e fauce;
Os deuses vão-se;
As feras vêm. Iô Pã! A matado,
Vou no corno levado
Do Unicornado.
Sou Pã! Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã!
Sou teu, teu homem e teu afã,
Cabra das tuas, ouro, deus, clara
Carne em teu osso, flor na tua vara.
Com patas de aço os rochedos roço
De solstício severo a equinócio.
E raivo, e rasgo, e roussando fremo,
Sempiterno, mundo sem termo,
Homem, homúnculo, ménade, afã,
Na força de Pã.
Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã!

 

 

O "Hino a Pã" é uma tradução do Hymn to Pan, do prefácio do livro "Magick in Theory and Practice", de Aleister Crowley. Esta tradução foi publicada em Outubro de 1931 em "Presença", de Fernando Pessoa.


(*) Mestre Therion é um dos nomes mágicos de Aleister Crowley.

 

A foto é do blog da Anne (Retalhos d'Alma) e quando olhei para aquela imensidade, ocorreu-me este Poema... vai-se lá saber porquê...

14.02.05

No dia de S. Valentim...


Otília Martel

...recebam um beijo de mim...

Gustav Klimt

 Pintura de Gustav Klimt

 

Talvez não ser, é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando o meio-dia
como uma flor azul, sem que caminhes
mais tarde pela névoa e os ladrilhos,

sem essa luz que levas na mão
que talvez outros não verão dourada,
que talvez ninguém soube que crescia
como a origem rubra da rosa,

sem que sejas, enfim, sem que viesses
brusca, incitante, conhecer minha vida,
aragem de roseira, trigo do vento,

e desde então sou porque tu és,
e desde então és, sou e somos
e por amor serei, serás, seremos.

 

[Soneto de Amor de Pablo Neruda]

11.02.05

Em palavras simples, correntes, portuguesas...


Otília Martel

...manifesto o meu repúdio por uma campanha feita por homens que deveriam estar acima de todos os outros, porque nos querem governar!

E afinal as palavras deles são iguais às minhas... banais.

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  Fotografia de Ognid - 2005

 

Fui ao encontro do amanhecer, enquanto o sol despontava suavemente.
Sorri levemente e pedi um café. Olhei o mar, dando-lhe os bons dias interiormente.
Uma voz despertou-me a atenção…

- Olá… há quanto tempo não te via menina, que fazes aqui?!

- Que é feito de ti? …

E, todas aquelas perguntas habituais (e que por vezes ficam sem resposta) num encontro entre dois colegas que se não viam há anos.

Inevitavelmente, a conversa recaiu em política.

Depois de dissecarmos os acontecimentos recentes eis que me surpreende com um... e então… continuas a escrever…ainda me lembro daquele teu “artigo”… caiu que nem bomba… sabes que o guardo religiosamente?
- Deixa-te disso, amigo…sabes quantos anos passaram? Muita coisa mudou…  (referia-me a mim…)
- Isso é o que te parece… Já viste como se digladiam? Aquele teu artigo é mais que actual… continua tudo na mesma…
- Deixemos esta conversa, sabes que já não me interesso por essas coisas. Agora a minha família está em primeiro lugar, tanta coisa se passou, aprendi a conhecer outras dores, outros pavores…vejo o mundo de uma outra forma…
- Não acredito! Tu? E as tuas convicções tão fortes? Querias salvar o mundo…
- Gostava... Mas uma andorinha não faz a primavera...
Despedi-me com um sorriso triste nos lábios e no coração.

A lembrança de um tempo em que lutava contra moinhos de vento, qual D. Quixote, perturbou-me e relembrei a história que mudou o meu dia a dia, mas que também afirmou em mim, a convicção de jamais me deixaria vencer.

 

“Era uma vez um jovem que sonhou ser rei.
E como rei, ascendeu ao trono rodeou-se da sua corte e começou a governar.
Mas não sonhou que mesmo nas cortes mais modernas, há traições, perseguições, mexericos, oportunistas, vendilhões e… tudo o mais próprio das cortes.
E como num bom reino que se preza começaram a rolar cabeças!...
Mas, voltemos à nossa corte, onde falta o sábio exemplo do rei Salomão, que ouvia pontualmente, as queixas e pretensões dos seus súbditos, julgando-os com sabedoria e tolerância “ qual Deus omnipotente, justo e misericordioso”, que distinguia o bem do mal, o justo do pecador, o verdadeiro do falso, e por tal, perdurou na História, através dos tempos. Lembrado pela sua justiça imparcial, pela sua destreza de espírito, foi herói retratado em livros e filmes nos tempos modernos.
Mas, esta sabedoria não se aprende em sonhos e, infelizmente já não existem reis como aquele, ele foi, para mal da humanidade, o último da espécie.
E então como é no nosso reino? No reino de…?
Qual Nero, que se deliciava a mandar os pobres cristãos para a arena real, no nosso reino vai-se para a nova “Torre do Tombo”.
Sim, porque agora já não se cortam cabeças, até porque, se calhar, já não existem carrascos que cumpram eficientemente o seu serviço.
Mas vontade mão deve faltar a algum pretenso “valentão”!
Agora, no nosso reino, acusa-se, julga-se, condena-se e cumpre-se prisão na Torre do Tombo, lá para os lados da (omite-se, aqui, esta parte), até que, quem sabe, haja um salvador, que nos arranque de lá.
Não sei se no sonho do nosso rei, entravam valores como competência, lealdade, honestidade, orgulho profissional, amor à profissão, vontade de trabalhar e saber, incentivar a legalidade, acabar com mexericos “emprenhadelas de ouvido”, negócios de corredor, explorar o próximo, falta de ética, “casos apadrinhados”, vinganças pessoais, etc., etc.
Algo vai mal no nosso reino.

E os súbditos já não se curvam respeitosamente à passagem do seu rei.
Será que ele acordará a tempo?!”
(Texto escrito e publicado em Março de 1992 num Jornal Local em que manifesto a minha revolta contra atitudes publicas)
(Qualquer semelhança com factos reais é... pura verdade!)

Este não é, nem nunca será, um blogue dedicado à política!

Não quero acreditar que a verdadeira face da política, seja o espectáculo,  a que todos assistimos diariamente, num confronto que nada dignifica a sociedade portuguesa!

Que os homens que se propõem governar este País, se digladiem, frente às câmaras de televisão, num jogo sujo e pobre, em que as verdadeiras necessidades do País, não são discutidas, nem aclaradas!

Haja respeito e dignidade!

Acima de tudo, para com os Portugueses!

09.02.05

Horas Rubras...


Otília Martel

 

 

Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas...

Ouço as olaias rindo desgrenhadas...

Tombam astros em fogo, astros dementes.

 

Os meus lábios são brancos como lagos...
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras....

Sou chama e neve branca misteriosa...
E sou talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!

Florbela Espanca


 

Uma forma de agradecimento, pela presença e pela palavra deixada, a todos os que por aqui passaram...

05.02.05

INSTRUÇÃO PRIMÁRIA


Otília Martel

 

menina com balão

 

Não saibas: imagina...

Deixa falar o mestre, e devaneia...


A velhice é que sabe, e apenas sabe

Que o mar não cabe

Na poça que a inocência abre na areia.

 

Sonha!

Inventa um alfabeto

De ilusões...


Um á-bê-cê secreto

Que soletres à margem das lições...


Voa pela janela

De encontro a qualquer sol que te sorria!

Asas? Não são precisas:

Vais ao colo das brisas,

Aias da fantasia...

 

Poema de Miguel Torga, in Diário IX a págs, 65

 

02.02.05

O meu outro Eu...


Otília Martel

despida.GIF

 

Nesta madrugada,

o meu pensamento esvoaça

perante os meus outros eus.

Heterónimos de mim,

caminham docemente

despindo-me de preconceitos,

nos meus lençóis de seda vermelhos

 

(Desenho da Carla Cristiana de Carvalho)

 

 Espero-te!

 Vem...

percorre meu corpo,

leva-me ao êxtase

saciando tua fome,

tua sede,

sente meus orgasmos

que são teus,

bebe-os

nessa ansiedade

de me amares vertiginosamente

neste eu que se soltou

nesta madrugada.

01.02.05

Amizade (do meu Livro de Memórias)


Otília Martel

Girls Picking Flowers in a Meadow, by Pierre Auguste Renoir

 

Olha que me queimas...tira isso daí...(refilo com voz zangada.)

A minha amiga teimava em colocar o ferro de engomar fora do descanso da tábua, enquanto eu costurava a bainha do vestido da boneca que se tinha rasgado, na confusão da brincadeira.

- Se me queimas, dou-te uma surra - enfrento-a sem medo da altura dela (já naqueles tempos era pequenita..eheh)

- Não te preocupes, se te queimar é como se me queimasse a mim, não somos amigas?- olhei para os seus olhos escuros e risonhos.

- Não brinques! Isso deve doer!
E continuava às voltas com o tecido, enquanto ela passava o resto da vestimenta que queriamos vestir à matrona
 
- Já está... vês como sei fazer uma bainha?

Inchada de orgulho, exibia o vestido qual troféu...

- Ahah... tudo torto, ora deixa cá ver!

E num rompante atira com o velho ferro de engomar (que naquele tempo não existiam a vapor e levezinhos), para me tirar o vestido das mãos...

- Ai ai, que me queimaste, sua estúpida - grito violentamente enquanto o ferro cai no meu braço, tragicamente!
 
As lágrimas rompem pela minha cara e eu solto o vestido que cai no chão desamparado.

A confusão que se gera...o raspanete que ouvimos imediatamente sobre não brincarmos com coisas de adultos (já tinhamos sido avisadas umas cem vezes), querendo que me tirem a dor que dilacerava a minha pele...

- Que fizeste tu agora? Então queimaste-te de propósito? Ora esta, onde já se viu isto?
 
Olhei com os olhos ainda em lágrimas para a minha companheira de brincadeira.
O braço estendido... os olhos rasos de lágrimas, os lábios apertados para não gritar.
Corri para ela.

- Que fizeste tu, tonta? - e abraçava-a chorando ainda mais...
- Dói-te muito?
- Dói-me tanto como te dói a ti... eu disse se te doesse me iria doer também... não somos amigas?

Ainda hoje no meu pulso direito está a marca do quente do ferro.

Ainda hoje no meu coração está a marca da prova de uma amizade que eu nunca esqueci.

Tinhamos cinco e seis anos... e esse dia marcou,, para sempre, em mim, o significado da palavra AMIZADE.
 
 
(17.01.2004)
 
 
Girls Picking Flowers in a Meadow
Art print by Pierre Auguste Renoir 

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