Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Eternamente Menina

Eternamente Menina

12.03.05

Tinteiro transparente...


Otília Martel

 

Quis deixar
uma letra pequenina,
onde coubesse
o sol e o vento,
o humor e a alegria,
letra minha
que não fosse solidão
mas um pouco de
cheiro a maresia.
Mas a névoa
não deixa ver a letra
desinspirada
pelo abandono
de multidões
que nos deram tudo
e deixaram-nos
o nada.
Hoje, vagabunda neste espaço,
caminho lado a lado
sem letras.
Fechada neste
tinteiro transparente,
esperando que alguém lhe tire a tampa
e que as palavras se soltem,
diluindo o vazio

que na mente se instalou.

 

Palavras, voltem aqui,
a este espaço
que conheceu diálogos quentes,
música de ambiente,
mas que um vendaval
limpou e, triste aqui estou,
onde nem a alegria entrou.
Senta-te aqui comigo,
dita-me palavras
murmuradas ao ouvido
da saudade
de ti, de mim, de todos aqueles
que nunca estiveram fechados

  num tinteiro transparente, 

mas que iluminavam este sítio 

e a minha mente! 

 

 

 

(27/07/2004 - originalmente colocado num Fórum do Terravista)

09.03.05

Sonhos nocturnos


Otília Martel

[Fotografia de Stefan Hadzi Nikolov]

 

De repente...
foi o espreguiçar
do sol
que me acordou
nas tuas mãos inquietas.
 
Afoguei-me
transgredi
revivi-me
no teu corpo
sepultada de
desejos sonolentos.
 
Fiz do teu suor
o meu sangue.
 
Depois...
quando senti
o bocejar lento
da tua boca na minha carne
fugi
com as mãos crispadas
e os olhos amargurados
pela fria
indiferença
do teu sentir.

 

 

Nesta madrugada parti ao encontro das minhas memórias e revivi num poema o meu sentir...

(31/5/2003)

08.03.05

Todos os dias...são dias...


Otília Martel

Imogen Cunningham

 

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prêmio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
para pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte.

 

(Queixa das almas jovens censuradas)

(Poema de Natália Correia)

 

 

Fotografia de Imogen Cunningham

06.03.05

Estou a ouvir...


Otília Martel

 

Ó Fortuna
variável
como a lua
cresces sempre
ou diminuis,
detestável vida!
hoje maltratas
amanhã lisonjeias
brincas com os nossos sentidos
a miséria
o poder
fundem como gelo em ti.

Destino cruel
e vão
roda que giras
a tua natureza é perversa
a tua felicidade vã
sempre a dissipar-se
pela sombra
e em segredo
aproximas-te de mim
apresento o meu dorso nu
ao jogo da tua
perversidade.

Felicidade
e virtude
são-me agora contrárias;
afecções
e derrotas
estão sempre presentes.
Nesta hora
sem demora
pulsai as cordas
pois que o bravo, derrubado
pelo destino
chorai todos comigo.

 

Carmina Burana

 

Letra traduzida do trecho "O Fortuna, Velut Luna" , numa música soberba de Carl Orff, que me apeteceu partilhar neste final de domingo...

06.03.05

Mutação...


Otília Martel

 

Aguarela_CCristiana.jpg

Aguarela da Carla Cristiana Carvalho

Tocou ao de leve no vestido amarelo de musseline.

Sempre gostara do toque daquele tecido…

Deixou-se cair no tapete da sala, enquanto olhava ternamente o rosto algo sério, que olhava em frente.

Onde já teria ela visto aquele rosto? De quem era aquele corpo perfeito?

Tem um olhar de admiração, quase terno…

A figura, mantém-se ali estática, mas percebe-se a ondulação do corpo… ela desliza no chão… donde conhece este corpo, pensa…

Olha para dentro de si… Espera… eu (re) conheço-te…Tu… és…Eu… Eu… quando era perfeita… quando olhares me cobiçavam…quando o mundo girava à minha volta…

Mas, se tu és Eu… quem sou Eu, afinal?

Que sopro passou por mim… não quero acordar… quero ter-te sempre aqui…

Não te vás embora, por favor…

E ela ficou ali…sabendo dos olhares esquivos, que já não eram de admiração, nem de desejo… aqueles olhares de indiferença… mas ela continuava na mesma… dentro dela… era a mesma… sempre seria!

 

 Este texto foi escrito, em homenagem a todas as mulheres, que sofreram a mudança dos tempos. Inspirado no quadro da Carla Cristiana, é um breve olhar sobre a mutação da Mulher. E é uma carinhosa homenagem à minha querida Amiga Maria Helena… ver-te-ei sempre com os mesmos olhos! A doença não derrubará essa beleza enorme que tens dentro de ti!

05.03.05

Na ponta dos dedos...


Otília Martel

naPontadoDedo.GIF

Se um dia resolver,
deixar a minha pena correr,
correr sem tino nem jeito,
talvez eu divulgue...
muito daquilo que trago no peito.
Mas se não puder,
divulgar em poesia,
tantos sonhos desfeitos,
em prosa eu divulgarei,
tanta ilusão perdida!
Mas se ilusões eu não tenho,
já que um dia as perdi,
e dos sonhos acordei já...
Que vou eu divulgar escrevendo?
Tolices, tantas que um dia fiz...
Porém esta pobre poesia,
tão pobre, sem jeito nem rima,
vai ser para rir e troçar...
Mas é tão minha que eu sinto,
bem dentro de mim algo gritar...
Não faças caso que riem,
deixa, quem não percebe, troçar...

03.03.05

Momentos


Otília Martel

[Aguarela de Carla Cristiana Carvalho]

Carla Cristiana de Carvalho

 

Ao abrir a gaveta, (re) descobri aquelas peças. Lembro-me que as comprei para te deslumbrar...Toquei em cada peça com o carinho com que me tocavas.

Espalhei-as em cima da cama relembrando cada pormenor daquele dia.

Sorrio recordando a expressão do teu rosto ao tocares nas ligas...

- Como se tira isto?

- Não sei. Descobre tu.

 

E tu foste descobrindo, em cada beijo que me deixavas no corpo, em cada toque das tuas mãos mágicas.

 

Retiraste com cuidado a primeira liga, enquanto a meia descia como cetim, na minha perna macia, arrastando o teu beijo perna acima.

 

Um frémito percorre o meu corpo. A suavidade dos teus lábios põe-me louca. De repente, enlaças-me completamente e olhas-me nos olhos.

 

Amo-te como nunca amei outra mulher.

 

E eu acreditei. Acreditava sempre.

 

Entregava-me a ti, esquecendo tudo, vivendo aquele momento.

 

Um latido, sobressaltou-nos...

 

Esquecemo-nos completamente do pequeno cachorro que, dentro do sapato, roía os atacadores.

 

- Deixa-o estar. Ele está com ciúmes.

 

Rimo-nos.

 

Voltámos a esquecer o cachorro.

 

Hoje a tua cama é outra...

 

Guardo lentamente cada peça...

 

O cachorro cresceu.

 

Já não cabe dentro do sapato...

02.03.05

Tenho que partilhar...


Otília Martel

...esta minha alegria! Já viram a satisfação estampada no meu rosto? Não?!

 

Boneca.GIF

 

Reparem melhor...
Querem saber porquê?...  Curiosos!...

Mas eu digo! Porque acham que me "embonequei" toda?
Exactamente!

Para vos dizer, que o meu Blog, finalmente, entrou em obras... já vos posso linkar, tenho música...e, isto tudo, honra lhe seja feita, devo ao querido Andy, do Okulto (meninas... mas que é isso... esperem lá... eu ainda não acabei... não comecem a correr já para "casa" dele...) que, muito amavelmente me ajudou nesta empreitada.

Na simplicidade destas flores deixo o meu abraço e, o meu  sorriso, também...

 

flores roxas