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Eternamente Menina

Eternamente Menina

31.08.05

A força do poder...


Otília Martel

 daqui


Aquela clara madrugada que
Viu lágrimas correrem no teu rosto
E alegre se fez triste como se
chovesse de repente em pleno Agosto
Ela só viu meus dedos nos teus dedos
Meu nome no teu nome e demorados
Viu nossos olhos juntos nos segredos
Que em silêncio dissemos separados
A clara madrugada em que parti
Só ela viu teu rosto olhando a estrada
Por onde o automóvel se afastava
E viu que a pátria estava toda em ti
E ouviu dizer adeus essa palavra
Que fez tão triste a clara madrugada
Que fez tão triste a clara madrugada

(Poema de Manuel Alegre)

27.08.05

O poder das mãos...


Otília Martel

 

 

Enquanto limpava a ferida do joelho, olhava as minhas mãos e pensava:
- O que faria com elas, se apanhasse o tipo que me derrubou?  - Um par de estalos! Dava-lhe um par de estalos!
Mas se fizesse isso, estava a fazer com as minhas mãos, aquilo que ele fez com as dele!
Mas ele derrubou-te. Tentou assaltar-te. E depois fugiu. Pensava, desoladamente. As tuas mãos, seriam iguais às dele, se lhe batesses!
Mas era o que ele merecia: - imaginas, se o carro que vinha atrás, passava pelo meu corpo, caído no chão? - Destruía a minha família!
- Já reparaste?
Um simples gesto, o que iria provocar?
Olho as minhas mãos sinto o meu corpo dorido mas, mais que a dor física, sinto a dor do meu interior.
Será que ele percebeu, que ao mandar aquela pancada com as mãos dele, poderia destruir uma família, a minha família?
Olho as minhas mãos... apetecia-me bater-lhe.

E recordo o Poema de Manuel Alegre:


Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema - e são de terra.
Com mãos se faz a guerra - e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas, mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor, cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.

 

in  O Canto e as Armas, pág. 121

(edição 1970)

16.08.05

O Mar...


Otília Martel

 Fotografia de Almaro

Imagem de Almaro daqui

 

Ondas que descansam no seu gesto nupcial
abrem-se caem
amorosamente sobre os próprios lábios
e a areia
ancas verdes violetas na violência viva
rumor do ilimite na gravidez da água
sussurros gritos minerais inércia magnífica
volúpia de agonia movimentos de amor
morte em cada onda sublevação inaugural
abre-se o corpo que ama na consciência nua
e o corpo é o instante nunca mais e sempre
ó seios e nuvens que na areia se despenham
ó vento anterior ao vento ó cabeças espumosas
ó silêncio sobre o estrépito de amorosas explosões
ó eternidade do mar ensimesmado unânime
em amor e desamor de anónimos amplexos
múltiplo e uno nas suas baixelas cintilantes
ó mar ó presença ondulada do infinito
ó retorno incessante da paixão frigidíssima
ó violenta indolência sempre longínqua sempre ausente
ó catedral profunda que desmoronando-se permanece!

 

 António Ramos Rosa
 

11.08.05

"A hora do Diabo"


Otília Martel

Imagem Jenni Petterson  

"...
A música, o luar e os sonhos são as minhas armas mágicas. Mas por música não deve entender-se só aquela que se toca, se não também aquela que fica eternamente por tocar. Por luar, ainda, não se deve supor que se fala só do que vem da lua e faz as árvores grandes perfis; há outro luar, que o mesmo sol não exclui, e obscurece em pleno dia o que as coisas fingem ser. Só os sonhos são sempre o que são. É o lado de nós em que nascemos e em que somos sempre naturais e nossos.
..." (excerto) 


in "A hora do Diabo" de Fernando Pessoa

07.08.05

Rasga as tuas mãos


Otília Martel

 Marcia Berenguer Cabral



Rasga as tuas mãos
criminosas,
assassinas,
cobertas de lava,
 sangue e cinza.

Rasga as tuas mãos
sedentas de ambição,
lado a lado com a traição,
e olha nos olhos das gentes
que feriste no corpo e na razão.

Rasga as tuas mãos
e encara de frente
aqueles a quem tiraste o pão,
a terra e a força
de viverem em Paz
com o chão lavrado,
a sementeira feita,
o orgulho de serem
gente de corpo inteiro.

Rasga as tuas mãos
queima os teus sentidos
na visão de momentos
que nunca terão perdão.


 

Que seja um grito bem forte:
BASTA!
05.08.05

Pequenas coisas...


Otília Martel

Imagem de daqui

 

Falar do trigo e não dizer
o joio. Percorrer
em voo raso os campos
sem pousar
os pés no chão. Abrir
um fruto e sentir
no ar o cheiro
a alfazema. Pequenas coisas,
dirás, que nada
significam perante
esta outra, maior: dizer
o indizível. Ou esta:
entrar sem bússola
na floresta e não perder
o rumo. Ou essa outra, maior
que todas e cujo
nome por precaução
omites. Que é preciso,
às vezes,
não acordar o silêncio.


Albano Martins in "Escrito a vermelho"

(Campo das Letras)

04.08.05

Vive e deixa viver


Otília Martel

Vive e deixa viver

 

Apesar da minha vivência e de alguns dissabores na minha vida, ainda sou das que acredito na boa fé das pessoas, talvez por ser optimista de nascença.

Não fujo aos desafios, não aceito provocações anónimas, dou a cara perante tudo aquilo que faça ou diga, mesmo que saiba de antemão que me irá causar dissabores.

Não aceito falsidades porquanto, quando sou amiga, SOU! Quando não sou, deixo as pessoas em paz, vivendo a sua própria vida.

Sigo um lema, há muitos anos: "Vive e deixa viver".

Há dias o Fernando B do Fraternidade, num texto intitulado "Eu e a Blogosfera" expunha de uma forma muito séria, o seu entendimento sobre Blogs.

Hoje em dia os meios de comunicação são realmente surpreendentes. Se até há bem poucos anos, uma pessoa não era capaz de descobrir os autores de chamadas ou cartas anónimas, hoje em dia, a tecnologia avançou tanto, que já não há lugar para os "anónimos", porque um dia, mesmo sem esperarmos, os descobrimos.

Porque a tecnologia está de tal forma perfeita, que de um momento para o outro, nos dá quase sem querermos, tudo aquilo que precisávamos de saber: a identificação ou seja o IP e mais elementos, de quem nos escreve.

E, aquilo que parecia ser, um comentário ou um e-mail de uma pessoa perfeitamente anónima, de repente, quase sem nos apercebermos, essa pessoa tem um rosto e um nome.

O que fazemos, quando descobrimos isso?

Que fazemos da desilusão que sentimos, especialmente, quando percebemos que essa pessoa já faz parte daquele rol, mesmo virtual, por quem nutríamos muita simpatia?

Porque será que apesar de todas as decepções que ao longo da vida se nos deparam, esta nos magoa ainda?

Não vou referir nomes, nem factos. A pessoa a quem me refiro, ao ler este texto, saberá que é para ela que escrevo.

E, vou continuar o meu caminho.

Exactamente, porque quero continuar a acreditar nos valores morais que me regem, na amizade sincera que pode existir, entre os seres humanos e, acima de tudo, quero continuar a acreditar que o pior inimigo de uma Mulher não é outra mulher.

 

E mantenho o meu lema: VIVE e deixa VIVER.

03.08.05

Ternura


Otília Martel

Isabel Filipe _ternura

 Imagem de Isabel Filipe daqui

  

Desvio dos teus ombros o lençol
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do Sol,
quando depois do Sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

 David Mourão Ferreira