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Eternamente Menina

Eternamente Menina

29.06.13

Limites


Otília Martel

Há homens que se vendem por vaidade
Há homens que se vendem por dinheiro
Há até quem se venda um bocadinho
E outros que se vendem por inteiro

Uns crescem comprando a consciência
Outros fabricando um futurozinho
Para uns já perdi a paciência
Para os outros não lhes quero ser nem vizinho
 
Vivo no lado norte extremo do orgulho
Cavalheiro cavaleiro doutra idade
Quando canto, atrevo a elegância
Quando escrevo, atrevo a liberdade

Não ergo as mãos por causas sibilinas
Em curvas encobertas de encoberto;
Grito o gesto e mordo o desespero
Se vejo injustiça, aí, estou perto

Não há meio de deixar de ser assim
Nem me quereria eu doutra maneira
Esmoleres caricaturas, compromissos
Chatos em geral, gente toupeira

Besuntados, comprados, graciosos
Respeitáveis, colunáveis de carreira
Untuosos perfis, lugares manhosos
Deixem-me ser livre assim e sem coleira

E caso a caso dir-vos-ei que penso
Vento limpo soprará minha bandeira
Não me vendo por vida nem por morte
Ninguém me comprará outra carreira

Acomodei-me demais a esta obediência
Guerreiro das palavras sem viseira
Por bússola sigo a minha consciência
E tenho a minha boca por fronteira.

Pedro Barroso, in Palavras Mal Ditas,

págs. 17/18
Lua De Marfim Editora

 

21.06.13

Sons de alma


Otília Martel


Os sons de alma que chegam até mim, vindos de ti.
A palavra saudade que escreves. A ternura que manifestas.  
O meu medo. O teu arrojo.  
Há esperança para nós? – Queres saber, insistentemente.
Não te minto.
Nos acordes da guitarra que tocas e, me mandas em arco-íris, cantas na tua voz doce a canção do bandido que não és.
E perguntas-me:  
"Diz-me: E a ternura? Assusta-te?"
Sorrio-te do lado de cá.  
Mas tu não sabes.  



... também, em homenagem a Sasseti que tão cedo nos deixou. ♥

 

 

 

17.06.13

Livros...


Otília Martel
Frederick Leighton

 Pintura de Frederick Leighton 

 

Uma das mais fiéis leitoras deste blogue, desde o seu início, desafiou-me para uma das tarefas mais difíceis mas de que mais gosto: recordar  os autores que li na minha juventude.

Fui sempre uma leitora (e compradora) compulsiva de livros. Quer seja poesia ou ficção. Falar de livros, não será para mim, um tema de circunstância, porque afinal, muita da literatura que li, marcou a minha personalidade e a minha escolha de filosofia de vida… 

Nos meus tempos de menina, na minha fase romântica, (confesso que ainda sou) chorei quando li “Jane Eyre”, de Charlotte Bronte, ou mesmo “O Monte dos Vendavais", de sua irmã Emily Bronte, ou quando passava noites inteiras acordada lendo obras de (retiradas às escondidas, da biblioteca do meu Pai), Sophia de Mello Breyner, Oscar Wilde, Júlio Verne, Camões, Florbela Espanca, Afonso Lopes Vieira, Cecília Meireles, Fernando Pessoa, Vitorino Nemésio, Sebastião da Gama, Miguel Torga, João de Deus, Antero de Quental, Natália Correia, Eríco Veríssimo, Marguerite Duras, António Botto, Teixeira de Pascoaes, Aquilino Ribeiro, Júlio Dinis, Alexandre Herculano, Herberto Hélder, Charles Dickens, Graham Greene, John Steinbeck, Walter Scott, Virginia Woolf, John Donne, Ernest Hemingway, Hermann Hesse, Dylan Thomas, Boris Vian, Lord Byron, Thomas Moore, Aldous Huxley, Honoré de Balzac, Jorge Amado, Camilo Pessanha ou um Eça de Queirós, entre muitos outros...

 Houve uma altura que "estudei" Homero, Ovídio, Virgílio, mas depressa passei para Cervantes e ler o seu “D. Quixote de La Mancha" foi qualquer coisa que me marcou até hoje. Depois vieram leituras empolgantes, como "Anna Karenina" ou "Guerra e Paz" de Leon Tolstói, ou “As Vinhas da Ira”, de John Steinbeck, que me levou a desejar ler ainda mais e aí apareceram autores, como Dostoiévski, Gorki, Gogol, Tolstoi, Tchekhov.

"O Primeiro Amor" de Isaak Babel, deixou-me com dúvidas terríveis, mas depressa as esqueci a ler a fantástica obra de Anatoly Kuznetsov "Babi Yar" que me levou aos horrores do holocausto…

Já numa outra fase, apaixonei-me por Friedrich Nietzsche e dele retirei um pouco da sua "loucura".

Numa viagem de vinte e dois dias por mar, li os quatro volumes de "O Don Tranquilo", de Mikahail Chólokhov e depois interessei-me pela obra poética de Mikhail Lermontov de que aqui deixo um excerto:

 

"Ó nuvens pelos céus que eternamente andais!
Longo colar de pérolas na estepe azul,
exiladas como eu, correndo rumo ao sul,
longe do caro norte que, como eu, deixais!

Que vos impele assim? Uma ordem do Destino?
Oculto mal secreto? Ou mal que se conhece?
Acaso carregais o crime que envilece?
Ou só de amigos vis o torpe desatino?

Ali não: fugis cansadas da maninha terra,
e estranhas a paixões e ao sofrimento estranhas
eternas pervagais as frígidas entranhas.
E não sabeis, sem pátria, a dor que o exílio encerra”"

(“Nuvens”, de Mikhail Iurievitch Lermontov, in Poesia de 26 Séculos, Ed.Asa
(pág.246)


Ler é uma paixão. De vez em quando pego ao acaso em livros já lidos e relidos e volto a recordar certas passagens que mais gostei. Como estas...

 

"Vimos de nada e vamos para onde. 

Perguntamos, e nada nos responde,
A verdade e a mentira são irmãs:
O que é que o evidente nos esconde?"
(…)
(excerto)

in "Canções de Beber" de Fernando Pessoa), Assírio&Alvim
(pág.84)

 

Camilo Castelo Branco

Capa do livro 

"…Quem observasse o viver de Camilo assim parco na mesa só ampliada quando a ela se assentavam estranhos, como singelo no adorno da casa, rejeitava a suspeita de ostentação naquele grande espírito."

in Camilo "visto por Freitas Fortuna, Edição da "Casa de Camilo" 

 

"Digo que não
Ao medo
Que me apavora;
E juro ao coração
Que virá cedo
A calma que demora."
(…)

(excerto)

in "Orfeu Rebelde" de Miguel Torga Edição Particular, Coimbra
(pág. 44)

 

"…Quanto maior é a cidade mais anonimamente se vive nela. Parecendo que não, isso repousa os nervos. É evidente que há parecenças em todas as partes do mundo, mas é diferente constatar parecenças do que viver a permanência…."
In Banana SPLIT” de Rui de Brito, Pub. Europa-América 
(pág.88)

"...Ver-se-ia então a noite instalar-se no mundo, as montanhas cobrirem-se de florestas e as florestas povoarem-se de feras.
Quanto aos costumes e maneiras dos povos, uma carapaça de gelo os cobriria…"
in "Salvo-conduto" de Boris Pasternak, Bibliotex Editor 
(pág. 45)
Eugénio de Andrade por Dórdio Gomes

Retrato de Eugénio de Andrade por Dórdio Gomes

 

“Acorda-me
um rumor de ave.
Talvez seja a tarde
a querer voar.

A levantar do chão
qualquer coisa que vive,
e é como um perdão
que não tive

Talvez nada.
Ou só um olhar
que na tarde fechada
é ave.

Mas não pode voar.

in "30 Poemas", de Eugénio de Andrade,

Fundação Eugénio de Andrade
(pág.15)  


E termino com uma citação de um dos poemas que mais gosto de Dylan Thomas:


"... mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;"

12.06.13

Moments


Otília Martel

É sempre com alegria que tenho conhecimento quando alguém partilha as minhas palavras. Mas essa alegria é redobrada quando os nossos poemas são traduzidos e disso nos dão conhecimento.

Agradeço a Nina Matos que seleccionou os poemas e Cécile Lombard que traduziu.

A minha sincera gratidão a ambas. 

Peinture Hessem Abrishami
Peinture, Hessem Abrishami
 
Toucher le ciel

dans la brume du désir
infini...

Toucher la mer
dans les vagues salées 
de ta bouche

Toucher la terre
sur le sol mouillé 
de ton corps

Et me perdre
dans tes bras
comme si je rendais
mon dernier souffle 
de Vie...

*
Tocar o céu
na bruma do desejo
infinito...

Tocar o mar
nas ondas salgadas
da tua boca

Tocar a terra
no chão molhado 
do teu corpo

E perder-me
nos teus braços
como quem perde
o ultimo fôlego 
de Vida...

Otilia Martel

(Menina Marota)

traduction de ©Cécile Lombard

06.06.13

Este é o momento!


Otília Martel
Victor Bregeda
Victor Bregeda



Este é o momento que o vento

toca as marés e as gaivotas

mergulham nas ondas.

 

Este é o momento de todos os desafios.

De vertiginosamente rasgar o passado,

vencer o medo e aceitar o combate.

 

Este é o momento da rotura,

de alcançar o futuro  prometido

e que nos foi roubado.

 

Este é o momento

de querermos, lutarmos

e vencermos.

 

Este é o momento!

02.06.13

♥ Um poema em forma de Tango ♥


Otília Martel

Dou-te a minha mão
Prendes os meus dedos nos teus
E nesse entrelaçar que nos liberta
Uma dança fazemos.

Sentes este tango que te percorre os dedos?
Entrego-te a minha boca
Nos teus lábios amordaças os meus
E nesse beijo que nos incendeia
Uma sombra abatemos.

Porque sinto o Sol a percorrer-me o corpo, sem medos?
A ti me dou em forma de palavras
Para que nos teus sentires despertes os meus
E nessa paixão que nos enlaça
Um poema satisfazemos.

Um poema...

Este poema mágico que sentimos dentro de nós
As tuas palavras com que saboreias a minha alma.

 

in, Menina Marota Um Desnudar de Alma (PapiroEditora)
pág.48