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Eternamente Menina

Eternamente Menina

27.07.13

"Os pobres deste mundo…"


Otília Martel

Afazeres levaram-me, naquela tarde, a sair de casa a caminho da Cidade.

Ao voltar não resisti ao apelo do mar, estacionei o carro e caminhei, descalça, em direcção às ondas que se espraiavam na areia.

Quando os pés ficaram doridos da frieza do oceano procurei um local para sacudir a areia e calçar-me de novo.

Alessandro Poma

 Alessandro Poma

  Na rocha a meu lado uma jovem que não teria mais de onze ou doze anitos (pela altura) comia um gelado enquanto falava, em tom baixo, com a senhora que a acompanhava.

Aos pouco as palavras chegaram até mim e o diálogo foi ficando audível.

- "Não estejas triste, Avó. Vai tudo resolver-se" – dizia num tom meigo a jovem.

- "Com o Avô doente, não sei como resolver a situação e não quero incomodar os teus Pais a trabalharem tão longe"- a resposta da senhora num tom triste, chamou-me a atenção.

- "Tive uma ideia, Avó".

- "Come o gelado, Mariana. Temos que nos despachar."

- "Mas não queres ouvir a minha ideia?"

E continuou sem esperar resposta…

- "Lembras-te quando o Avô foi entregar aquele dinheiro que lhe tinham mandado e não era dele? Por o nome dele ser igual ao da outra pessoa? O senhor do banco disse que foi um engano e agradeceu muito, lembras-te? E se nós fossemos falar com ele? Ele podia ajudar-nos a arranjar uma forma de pagarmos isso …"

- "Mariana, despacha-te. Isto não é assuntos para ti!"

- "Oh, Vó... já não sou nenhuma criança. Sei bem que estão nesta situação por estarem a ajudar-nos, ao meu irmão, aos meus Pais e também a mim. Até me pagaste o gelado!"

Mais do que ver senti a senhora sorrir e a sua voz tornou-se mais doce:

- "Mariana, despacha-te. O Avô fica preocupado quando demoramos."

- "Já sei o que vou fazer, Avó! Quando chegarmos a casa vou escrever uma carta ao senhor que escreveu ao Avô a pedir-lhe o dinheiro e dizer-lhe que ele está doente, não trabalha, e que tu e o Avô estão a ajudar os meus Pais a ganharem dinheiro para eu e o meu irmão estudarmos. E vais ver, ele vai ajudar-nos, tenho a certeza!"

- "Não te preocupes…vou eu tratar deste assunto…" – interrompeu-a a Avó dando um suspiro entrecortado num som triste, passando-lhe ternamente a mão pelo cabelo.

Nesta altura da conversa, já calçada, disfarçava, sacudindo repetidamente a areia dos tornozelos. Um nó apertava-me a garganta e quase não conseguia respirar.

Levantei-me e, pela primeira vez, olhei-as de frente.

O ar cansado, mas doce, da Avó e os seus cabelos brancos esvoaçando levemente, contrastavam com a jovem, que lhe segurava a mão: magra, cabelo curto, grandes olhos azuis, olhar decidido.

Olharam ambas para mim quando passei e, não conseguindo desviar o olhar, sorri-lhes.

A jovem fixou-me e retribuiu o sorriso mas nos seus olhos notei-lhes a tristeza e a Avó um pouco ruborizada talvez por sentir que tinha ouvido a conversa, sorriu levemente enquanto dizia – "ai estas crianças gostam de saber tudo".

Olhei a jovem por momentos e respondi baixinho, enquanto lhe passava a mão pelo cabelo sedoso: "que tudo vos corra bem."

Não consegui dizer mais nada e dirigi-me aos degraus que me levaram ao carro onde me sentei a pensar no ocorrido.

De repente e sem qualquer motivo de comparação veio-me à ideia Pelágia Nilovna, do célebre romance de Máximo Gorki, "A Mãe" que já li e reli não sei quantas vezes e a frase final da sua luta:

-  "Os pobres deste mundo…"

14.07.13

Em final de dia...


Otília Martel

A noite caiu. O dia está a acabar. Outro virá.  
A música que é permanente no meu pensamento e na minha vida, não pode faltar, como oxigénio no planeta Terra, que estamos a desbravar.
E, ao ouvi-la, tudo pára num repente. Nada existe que polua a minha mente.
A música é o imo da minha existência.
E a noite torna-se mais quente. A lembrar África no meu coração.

… boa noite! ♥♥♥♥♥

 

 

 

 

 

10.07.13

Entre o real e o virtual… um caminho ténue…


Otília Martel
Há empatias que se desenvolvem no mundo virtual completamente diferentes daquelas que o mundo real nos oferece.
E a amizade e sensibilidade dessas pessoas são de tal maneira marcantes que a simples ausência delas, por vezes, me deixa preocupada e acabo por ir saber o motivo dessa ausência.
Fui confrontada, durante o mês que passou, com notícias tristes que me fizeram recordar tempos e pessoas com quem cruzei caminhos virtuais e, em certos casos, amizades que passaram para o mundo real.
Na génesis do entendimento virtual está o respeito, a presença, a partilha, o afecto, que conduzem a uma consciência do ser capaz de interpretar pequenos nadas que se tornam poderosos na nossa alma.
Ao longo dos anos vi partir algumas dessas pessoas com quem me cruzei virtualmente e a minha alma chorou.
E a lista começa a ser grande e dói. Dói mesmo!
É para vós, amigos que partiram, os de antes e os de agora, que deixo estas palavras e esta música... 
 
 

Dádivas de amor...


Na ausência partilhada
existe o silêncio amargo
como bola de fogo
que não se extingue.

Sonhos lapidados
alegrias esquecidas
delicadas lágrimas
em flores de amor
jamais floridas.

Nas ondas do sonho
imergi minhas emoções
numa melodia doce
onde as sensações se diluem
no corpo do poema

Um mistério. Uma ternura. Uma saudade.

Dádivas de amor
na total cumplicidade dos dias idos.

 

 

03.07.13

Silêncio


Otília Martel

Oh imaginário 
dos sonhos imutáveis


Promessas aladas
que permanecem etéreas 
estrela dos sentidos
em ondas voláteis do tempo

Tremor
do beijo
em cada 
madrugada
que brota
na melodia
da canção.

 

… bom dia! ♥♥♥♥♥