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Eternamente Menina

Eternamente Menina

22.08.13

ao longe os azuis


Otília Martel
 
 

Ao longe os azuis,

como se fossem segredos destapados,

na amplitude do olhar,

que se queria tresmalhado nos trilhos das águas.


Este corpo oblíquo sobre o mar e

sobre a areia cálida,

a retalhar a pele seca e carente,

moribunda, e de saudade entranhada,

sequiosa de terra orvalhada.


E os azuis tão perto e tão aquém,

que já nem a vista consegue manter.

.

© Piedade Araújo Sol 

2013-07-30

 

 

Imagem daqui

07.08.13

O Poema.


Otília Martel

O texto que se segue foi deixado, num dos meus blogues, como comentário a um poema que partilhei.

Pela sua qualidade e sensibilidade resolvi partilhá-lo.

 

Vladimir Kush
Vladimir Kush
 

 

O Poema (enquanto espero por ti)


Todos os dias ela traz as manhãs no seu regaço e dá-mas, como maçãs verdes por trincar, vestidas de orvalho. Toca-me com as pontas de pluma dos dedos dela – em prelúdio de mãos entrelaçadas – e, à distância, pede-me silêncio até que eu consiga ouvir apenas o meu coração e o dela a bater sincopadamente. Esse é o sinal de partida para o dia – sem ela mas apenas com e por ela.

(Depois, e apesar de ser um presente dela, desperdiço mais um dia, enclausurado na prisão do meu escritório, alegrando-me apenas e absurdamente quando, por momentos, lembro o seu límpido olhar de menina, puro de água nunca tocada - muito menos bebida. Depois – e antes de nova recaída nela - volto à luta, já que o trabalho não se faz sozinho, as batatas não se pagam sozinhas – de facto, a solidão é mesmo um privilégio humano… E o pior é que nem tenho um pássaro de olhar lírico – eventualmente poisado nos ramos de uma árvore que apenas sonha ser uma rosa -, nem sequer tenho uma porcaria de um quintal em frente, e a única gaiola que conheço é este escritório que, dia a dia, palavra a palavra, número a número, me asfixia a alma a cada expirar. Mas às rigorosas e implacáveis 18:00,00 TMG saio em liberdade condicional, apenas para ficar à espera do sinal dela, na estranha e secreta esperança de renascermos juntos.)

Ao entardecer ela embala o Sol, deitando-o depois nas correntes que empurram o Douro para o abraço do Atlântico onde, lenta e pacificamente, adormece, desaparecendo como um beijo de fogo que se extingue no horizonte. E esse é o sinal de partida para a noite – sem ela mas apenas com e por ela –, para mais uma noite em que eu acredito que ela virá libertar-me, resgatar-me deste estranho torpor de dias moribundos. E, enquanto espero, saboreio a imagem que dela construí, seu beijo, seu abraço, como se ela fora feita de todas as maçãs verdes nascidas do orvalho de todas as manhãs. E que eu quero desesperadamente trincar.

II

Graças a ela, todos os dias eu, qual Mouro distante, redescubro o Poema Essencial, aquele que não precisa de palavras – porque as transcende.

E quando hoje eu a vi, surgindo por de dentro de uma lágrima de espera que se quebrou no chão frio de minha casa, aí sim, eu soube, tive a certeza, que o Poema tinha nascido para ela, nela, sob a forma dela.

III

Hoje eu soube, aprendi, que ela é – apenas e só – ela. Despida de frase, palavra ou fonema. Ela é a Vida, ela é

O Poema. 

de, Cuotidiano