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Eternamente Menina

Eternamente Menina

14.11.13

Momentos.


Otília Martel

Adoro refastelar-me no cadeirão da secretária, pernas esticadas em cima da soleira da portada do terraço virada para o verde do arvoredo que a minha vista alcança e deixar-me levar pela música e pela leitura.

São momentos ininterrompíveis de tranquilidade que me transportam a uma placidez interior onde mergulho e deixo-me arrastar nas ondas da sonata que me envolve.

Beethoven acompanha-me na leitura do livro que escolhi para esta tarde e, apesar de já o ter lido variadíssimas vezes, a poesia não me cansa; leio e releio os mesmos poemas vezes sem conta para absorver todo o seu significado.  

A música espelha-se na minha alma e a poesia é um momento único, onde me deleito e enriqueço. 

Fecho o livro docemente. Ele sabe que voltarei.

A música continua no embalo do fim do dia…

 

Pacto

   Do pacto que o Verbo celebrou comigo
há sempre um artigo que sempre subsiste

Deixar que as palavras apenas exprimam
o que sem palavras tentava exprimir-se

Deixá-las que rompam da noite da vida
para que suspendam a morte do dia


David Mourão-Ferreira in, Obra Poética (1948-1988) 

A págs. 373 (Editorial Presença)

 

02.11.13

in memoriam


Otília Martel
Pintura de Annie Louisa Robinson Swynnerton
 
 
Considera a Igreja Católica, o dia de hoje, 2 de Novembro, dia dos fiéis defuntos.  
Não preciso de um dia estipulado para recordar aqueles que já partiram. Os que amei, aqueles por quem nutria um especial afecto ou aqueles que, por parentescos passados, fizeram parte da minha vida.
Há muito quem tenha dificuldade em falar da morte e dos que partiram. Eu não tenho.
E como dizia um poeta anónimo da cultura celta (irlandês) do século IX…
 
*”Será de manhã ou quando a noite cai?
Será em terra ou no alto mar?
Eu sei de certeza que a morte virá
Apenas não sei quando será."

Por isso, como tenho algures, no calendário do Tempo, a minha data marcada, não me é difícil falar do que me espera e dos que tiveram a sua hora chegada.

Pensei exactamente nisto, quando hoje, por uma daquelas coincidências da Vida, o passado me visitou através de fotografias familiares que regressaram, de novo, às minhas mãos.

Lembrar o passado, quem amámos, quem respeitámos ou, simplesmente, quem por nós dedicou um afecto bem sentido e nunca escondido e que, de repente, nos é lembrado, in memoriam, é sempre um processo doloroso. Mesmo que não queiramos que o seja.

Ao folhear um álbum de fotografias que, anos atrás, ofereci a uma pessoa que sempre estimei e respeitei, trouxe-me memórias fantásticas que pensei já esquecidas.

Os vínculos perdem-se, mas os afectos permanecem.

São esses afectos e as memórias de tempos passados e, afinal, nunca esquecidos, que fazem as pessoas serem lembradas sem precisarmos de dias específicos.

in memoriam a todos aqueles que partiram mas que nunca serão esquecidos.


*Poema "A Incerteza da Vida", in Rosa do Mundo – 2001 Poemas para o Futuro, a págs 574 e 575.