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Eternamente Menina

Eternamente Menina

31.01.14

Entre o céu e o mar


Otília Martel

Acordei tarde com o sol entrando no quarto.

O Sting, no terraço,  feliz,  numa dança cabriolante,  tentava apanhar um insecto que se entretinha,  irritante,  a segui-lo. 

Apetece-me o sabor do café e corro para a cozinha. Olho através da janela: ao longe, quatro barcos navegam num manto azul da cor do céu e esperam, provavelmente, a entrada no porto mais próximo.

O sol brilha, alegrando meu dia. 
 
Pintura de Paul Brent
 
 
 

Sol!

Tu que abres 
as portas da alma
como rio sulcando
as duras rochas da serra
seca os leitos 

de terra encharcados
floresce no corpo gelado 
das gentes sem abrigo 
e acalenta seus dias.

E na terra fermentada
germina raízes de alimento
acalma as bravias ondas do mar
e segura nas finas redes o peixe
que o forno quente irá assar.

 
08.01.14

Gravitando


Otília Martel

Gravitando

 

Soube de ti devagar, apenas na medida que não sabia que te aproximavas de mim

Não sabia que eras uma força que me impeliria para ti, se calhar apenas para me derrotar

Se calhar apenas para me obrigar a desistir

Era a gravidade, dizias, não a realidade, apenas a estranha vontade da vida

Era apenas a gravidade que me fazia cair, cair, sofrer

Assim sendo, *maldita gravidade que me faz lembrar-te enquanto te tento esquecer

Enquanto me tentas

Enquanto tu és mil, milhões de vezes melhor que tudo, que todas, que a própria vida

*Maldita gravidade que te transforma numa estranha gravidade que me atrai

Que me mata, mas que – estranhamente – me faz viver!

 

A verdade é que me manténs vivo

Nas mentiras

Nas verdades

Nas vontades

Nos momentos

Nos desejos

 

Tu eras, fostes e serás sempre algo de estranho na minha vida

Um momento único, eventualmente inexistente

Uma estranha gravidade que me atrai para ti

Tu que me atrais para o chão de nós

Para o medo de nada

Mas

Mesmo assim

Impossível de evitar

 

Sonhos

Desejos

Seja o que for

Apenas de ti

Gravito, desejo, espero,

Mas tu levas-me ao fundo

Ao chão

Se calhar ao fundo de mim

 

De joelhos te espero

Tu és a gravidade, a vontade, a saudade, o desejo, tudo o que me falta e me atrai

 

Como uma estranha gravidade

Como um estranho amor de nada

Apenas tu

Minha gravidade oblíqua

Minha saudade

Meu sonho e desejo

 

Peço-te: Não me mates assim,

Espera por mim

E pela outra gravidade que nos fará voar livremente pelo espaço afora

 

Sem destino, sem sentido e

Talvez

Sem qualquer gravidade

Sem palavras, sem voz

Sem algo que nos faça cair em qualquer lado que não seja

O abraço de nós

 

Texto de RSS

  

* Pedindo desculpa ao autor, palavra substituída do original  

 

 

01.01.14

Ele aí está!


Otília Martel

2014

E que em cada um dos doze meses que o constituem, a esperança, a alegria e todas aquelas pequenas coisas que alimentam o dia a dia e que se traduzem em felicidade possam progredir e traduzir-se na concretização de alguns dos vossos sonhos e anseios.  

E para começar o ano em poesia deixo-vos um poema que gosto muito de Carlos Drummond de Andrade porque transmite todo o meu pensamento.

 

Podem ouvi-lo ainda na voz de Luís Gaspar 

Feliz Ano Novo!

 
 
 
Receita de Ano Novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-la na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade