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Eternamente Menina

Eternamente Menina

28.04.18

Espelho de duas faces


Otília Martel

Espelho de duas faces

 

Ajuda-me a esquecer as tuas faltas
e a ignorar os teus crimes
para melhor te amar.
Dá-me a febre em que te exaltas
e o que nos olhos exprimes
quando não sabes falar.

Espelho de duas faces, plana e curva:
és, e não és.
Imagem dupla, ora límpida, ora turva,
numa te afirmas, noutra te negas, em ambas te crês.

Queria sentir-te em outros sentidos.
Queria ver-te sem olhos e ouvir-te sem ouvidos.
E queria as tuas mãos numa aleluia fraterna.
Essas mãos que ainda ontem, de manhã, aturdidas,
com duas varas secas e folhas ressequidas
arrepiaram de luz as sombras da caverna.

 

António Gedeão in, Poesia Completas,

(1956-1967)
a págs. 11

11.04.18

Quase um Poema de Amor


Otília Martel

Lauri Blank

 

 

Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.


Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
— Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.


Miguel Torga, in 'Diário V'

 

 

Imagem: Lauri Blank 

03.04.18

VENTO DE PRIMAVERA


Otília Martel

Lidia Wylangowska

 

VENTO DE PRIMAVERA

 

Neste cheiro
de maresia
nestas ondas
de prata
neste vento
que rebela
meus cabelos
de rajada.

Areia que o mar
envolve
sob o céu azul
de nuvens
gaivotas ao vento
esvoaçam
neste tempo frio
de chuva.

Serenos
desejo os dias
na leve brisa
das marés
sonhando
com sol abrasador
em tempo de Primavera!

 

 


Imagem: Arte de Lidia Wylangowska