Eternamente Menina

Maio 07 2018

Martha Barros

 

 

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

 

Poema de Manoel de Barros

in, "Antologia comentada da poesia brasileira do século 21”,

a págs. 73/74

 

 

publicado por Otília Martel às 21:17

Abril 28 2018

Espelho de duas faces

 

Ajuda-me a esquecer as tuas faltas
e a ignorar os teus crimes
para melhor te amar.
Dá-me a febre em que te exaltas
e o que nos olhos exprimes
quando não sabes falar.

Espelho de duas faces, plana e curva:
és, e não és.
Imagem dupla, ora límpida, ora turva,
numa te afirmas, noutra te negas, em ambas te crês.

Queria sentir-te em outros sentidos.
Queria ver-te sem olhos e ouvir-te sem ouvidos.
E queria as tuas mãos numa aleluia fraterna.
Essas mãos que ainda ontem, de manhã, aturdidas,
com duas varas secas e folhas ressequidas
arrepiaram de luz as sombras da caverna.

 

António Gedeão in, Poesia Completas,

(1956-1967)
a págs. 11

publicado por Otília Martel às 12:22

Abril 11 2018

Lauri Blank

 

 

Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.


Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
— Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.


Miguel Torga, in 'Diário V'

 

 

Imagem: Lauri Blank 

publicado por Otília Martel às 19:11

Abril 03 2018

Lidia Wylangowska

 

VENTO DE PRIMAVERA

 

Neste cheiro
de maresia
nestas ondas
de prata
neste vento
que rebela
meus cabelos
de rajada.

Areia que o mar
envolve
sob o céu azul
de nuvens
gaivotas ao vento
esvoaçam
neste tempo frio
de chuva.

Serenos
desejo os dias
na leve brisa
das marés
sonhando
com sol abrasador
em tempo de Primavera!

 

 


Imagem: Arte de Lidia Wylangowska

 

publicado por Otília Martel às 21:15

Março 28 2018

 

Tinharé Foto da minha filhota Sandra V

 Tinharé,  Sunset  - Sandra V - (a minha filhota)

 

Persigo a noite na margem proibida das trevas.
Um júbilo nocturno incendeia todos os espelhos
e sob o coração das sombras vislumbro,
em meu olhar, o mais intenso brilho.
Não sei mais o que dizer.
É tão frágil tudo o que nos pode purificar!

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013, p. 18

 

 Feliz Pascoa

 



publicado por Otília Martel às 21:06

Sobre Mim...
Outras Eternidades