Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Eternamente Menina

Moments

É sempre com alegria que tenho conhecimento quando alguém partilha as minhas palavras. Mas essa alegria é redobrada quando os nossos poemas são traduzidos e disso nos dão conhecimento.

Agradeço a Nina Matos que seleccionou os poemas e Cécile Lombard que traduziu.

A minha sincera gratidão a ambas. 

Peinture Hessem Abrishami
Peinture, Hessem Abrishami

Toucher le ciel

dans la brume du désir
infini...

Toucher la mer
dans les vagues salées 
de ta bouche

Toucher la terre
sur le sol mouillé 
de ton corps

Et me perdre
dans tes bras
comme si je rendais
mon dernier souffle 
de Vie...

*
Tocar o céu
na bruma do desejo
infinito...

Tocar o mar
nas ondas salgadas
da tua boca

Tocar a terra
no chão molhado 
do teu corpo

E perder-me
nos teus braços
como quem perde
o ultimo fôlego 
de Vida...

Otilia Martel

(Menina Marota)

traduction de ©Cécile Lombard

Queria escrever um poema

Queria escrever um poema sobre o dia de hoje.
O sol está fosco nesta rua suja e semi escura.
No vaivém de pessoas, na porta que se abre e fecha com um seco rangido, alheias aos rostos fechados que por si se cruzam, o segurança de olhar vivaço, atento e solícito, estica o braço como um ioiô de menino traquina.
Do lado de fora da porta, no chão, mil beatas esmagadas, intervalo de vício de enfermeiras, bombeiros e acompanhantes dos utentes que, na impaciente espera, ali vêm espairecer.
Ao som da RFM que pela vigésima quinta vez transmite a canção que já sei quase de cor, a espera já não desespera.
Sinto-me privilegiada por conseguir lugar no estacionamento, em frente à porta, e assim aguardar.  
Olho a capa do livro “Os pássaros brancos e outros poemas” de Yeats no banco do passageiro que há-de chegar. Tem sido a minha companhia nestas últimas sessões de tratamento e apesar do tempo decorrido ainda a leitura vai a meio; leio e releio o mesmo poema uma dezena de vezes para melhor compreender a sua essência.  
Há muito quem pense que ler por breve tempo a escrita de alguém é o necessário para conhecer a sua alma.  
Penso o contrário. Por mais que se leia um poeta nunca verdadeiramente deciframos o seu âmago. 
Pego, tristemente, no cartão que marca o último poema lido.  
Lá fiquei sem saber "O que vai na cabeça do menino Manuel" um espectáculo musical a que tive que faltar como, aliás, faltei a muitos outros.  
Gostava, sinceramente, de ter visto esta peça mais não fosse por homenagem ao autor dos textos que admirava muito, o Manuel António de Pina.
Olho a ilustração inserida no cartão e a minha imaginação voa infantilmente.  
São estes momentos de evasão que me dão força para viver a vida tal como se apresenta.  
Um toque no vidro desperta-me.  
O segurança alerta-me que o doente já ali está para o conduzir para o carro. Sorrio agradecida e salto do carro atirando o livro para o banco traseiro.  
Volto ao meu lugar já com o passageiro instalado e rumo ao caminho que me levará de volta a casa e ao meu mar…
Bem… eu só queria escrever um poema sobre este dia e acabei divagando…

Ilustração de Rui Sousa

Ilustração de Rui Sousa

 

  Essa rapariga enlouquecida improvisando a sua música,

A sua poesia, dançando sobre a praia,
Com a alma de si mesmo dividida
Trepando, caindo sem saber aonde,
Escondendo-se entre a carga de um vapor,
De joelhos esfolados, essa rapariga, eu a declaro
Algo de majestoso e belo, ou algo
Perdido heroicamente, heroicamente achado.
Ocorresse o que ocorresse
Ela deixava-se envolver pela desesperada música
E envolvida, envolvida, construía o seu triunfo
Onde os fardos e os cestos não produzem
Qualquer som comum inteligível
Mas cantavam, "Ó faminto mar, mar esfomeado."

"Uma Rapariga Enlouquecida", poema de W. B. Yeats

in pág. 137, "Os Pássaros Brancos e Outros Poemas"

 

"O meu país é o que o mar não quer"...

Há paixões que cresceram comigo e que o tempo não diminui: mar, animais, música, flores, livros (não necessariamente por esta ordem) são algo que sempre fizeram parte da minha vida e que, de uma forma ou outra, me marcaram.
Já hoje falei, num outro local, de Fernando Pessoa e da importância que dou à sua poesia no decorrer dos tempos.
Descobri Ruy Belo mais tarde. Confesso que não foi amor à primeira vista mas não renunciei a ele. E li-o. E reli-o. Mastiguei cada estrofe do seu versilibrismo. E, no fim, sucumbi ao poder argumentista de uma poesia cheia de significados.

Pintura de Vladimir Kush
Pintura de Vladimir Kush


"Morte ao meio-dia"

No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopre e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente tem saúde e assistência cala-se e mais nada
A boca é pra comer ou pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

O português paga calado cada prestação
Para banhos de sol nem casa se precisa
E cai-nos sobre os ombros quer a arma quer a sisa
e o colégio do ódio é a patriótica organização

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido a praia à luz do dia
pois a areia cresceu e o povo em vão requer
curvado o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer

de, Ruy Belo in Todos os Poemas, Vol.I, págs 203/204

Apresentação do meu primeiro livro digital... Olhos de Vida.

Está disponível em PDF e noutros sistemas, o meu novo livro.

Que dizer-vos dele?
Não foi pensado. Não foi agendado.
Nasceu do coração, como nasce a poesia que tem alma e razão.
Foi filmado num dia de chuva, com a simplicidade d'um rosto de cara lavada, de jeans desbotados, descalça, na areia molhada, descontraído, natural, o dia a dia da poesia sentida, real, tal como a maré cheia que na praia desmaia.


Na versão para iBook pode ver-se um vídeo dividido em duas partes, no ínicio e a meio do livro, bem como ouvir-se cinco poemas e dois textos declamados por Luís Gaspar


Escolha a versão que preferir na Livraria Liberdade





Estrelas no Céu

Noite de S. João, Porto

 

Anoiteceu.
Ao longe o som da música lembra que
é noite de festa

Algures,
gente animada, de sorriso sedutor e
movimentos ondeantes,
envolvem-se na dança do amor

Corre-me nas veias um arrepio
sentindo o furor que adivinho
no calor que se desprende
entre a música e o clamor

É noite de S. João.

iBooks e poesia...

 

Aderir às novas tecnologias, acompanhando os tempos actuais onde, cada vez mais, a informática leva-nos por caminhos de progressos que ressaltam entre os mais ousados é, sem dúvida, um enorme desafio.  

Confesso que foi uma deliciosa surpresa o convite para integrar o projecto que o jovem director de fotografia e realizador de vídeos, André Gaspar está a realizar na área do iBooks com a inclusão de poemas e textos de minha autoria. 

A ilustração do mesmo está a cargo da jovem Catarina Lourenço cujas imagens e traço me sensibilizaram indo ao encontro do corpo do poema dando-lhe forma e cor.  

É dela a ilustração que vos ofereço com o presente poema e que irá figurar no meu próximo livro no iBook.   

 

Aguarela de Catarina Lourenço

 

 Olhos de vida

 

  Vagueio num campo de flores azuis
enquanto aguardo o sono chegar
embalada na estrela que quero admirar.

Esta noite
voltei a ser a rapariga
que foge dos sonhos,
olhando os olhos da vida,
mas que apesar de tudo
por ela quer ser seduzida
e deixar-se embalar.

Meu corpo de fogo
embala-se nas palavras de gelo
que lhe são sussurradas
e espanta-se
mais uma vez
por sucumbir a um dever
 

a que não estava destinada.

 

Domingo em casa


(Imagem Google)
 
 
 

Amanhã podia ser domingo, e

não haver sol; podia ouvir os sinos e

dizer que era apenas uma ilusão; podia

descer a rua e não encontrar o homem

que vende os jornais; podia chegar

ao largo e não ver as mulheres

em grupo a caminho da igreja, onde

vai começar a missa.

 

Amanhã podia ser domingo,

e as rua estarem vazias como se

não houvesse nada para fazer; podia não

ser domingo e todas as lojas

fecharem, podia não

ser domingo e alguém perguntar

o que é que se faz quando não

é domingo.

 

Amanhã podia ser um dia qualquer,

e não saber em que dia estou; podia

olhar para o relógio e descobrir que

os ponteiros estão parados, podia

ouvir alguém falar, e não saber de onde

vem a voz que sai da sua boca, como

se estivesse sozinho.

 

Ou então, podia abrir a porta e

ver que o domingo quer entrar; e

puxá-lo para dentro da casa, para

que lá fora fique sem domingo; e

sair para a rua num dia qualquer,

perguntando a quem passa

se viu passar o domingo.

 

 

Poema de Nuno Júdice in "As coisas mais simples",
pág.21/22 (2006)

 
 

Acordar

(Imagem de autor desconhecido)

 

  Acordaste-me

na sombria madrugada

em que meu coração

padecia.

 

Caminhei para ti

sonâmbula de sombras

pisando serenamente

cada lágrima

que do meu rosto corria.

 

E o meu olhar

fundiu-se num sorriso

olhando o mar

que calmamente saía

dos teus olhos

sorrindo para

mim.